terça-feira, 1 de maio de 2018

Qasr Ash-Sharajib


“Saúda, por mim, Abu Bakr, os queridos lugares de Silves, e diz-me se deles a saudade é tão grande quanto a minha. Saúda o palácio dos Balcões, da parte de quem nunca os esqueceu. Morada de leões e de gazelas, salas e sombras onde eu doce refúgio encontrava entre ancas opulentas e tão estreitas cinturas! Mulheres níveas e morenas atravessavam-me a alma como brancas espadas e lanças escuras. Ai quantas noites fiquei, lá no remanso do rio, nos jogos do amor com a da pulseira, curva igual aos meandros da água enquanto o tempo passava... E me servia de vinho: o vinho do seu olhar às vezes o do seu copo e outras vezes o da boca. Tangia cordas de alaúde e eis que eu estremecia como se estivesse ouvindo tendões de colos cortados. Mas retirava o seu manto grácil detalhe mostrando: era ramo de salgueiro que abria o seu botão para ostentar a flor” (poema da autoria de Al-Mu’tamid, enviado a Ibn ‘Ammar, relembrando os tempos da juventude de ambos em Silves).
Depois da unificação do Algarve árabe, a cidade de Silves, habitada não por berberes mas por cultos árabes do Iémen, inicia um período de grande prosperidade. De belo aspecto, de construção elegante e possuidora de bazares bem fornecidos, com gente do povo que se exprimia de maneira eloquente e citava versos de cor, ligada aos nomes e obras de Ibn ‘Ammar, Ibn Qasi e Al-Mut’amid, Silves guarda ainda a evocação da “madina”, da “alcazaba” e do notável “Palácio das Varandas” que foi, no Ocidente, uma assumptível visão idílica, adornado, celebrado e cantado por artistas, historiadores e poetas, com o mais alto requinte, encantamento e fulgor.
Admite-se que na sua origem esteja a dinastia dos Iahias que, na época da guerra dos muladis, no século X, revoltada contra Córdova, se tenha instalado na região. Bakr Ibn Iahia, o seu ministro (“uazir”), instituiria aí um disciplinado corpo de tropas e um poderoso Conselho de Estado (“divan”).
Silves foi imortalizada como um grande centro do prazer e do luxo. Ficaram célebres as suas noites de festa e de música, de poesia e de dança, de prodígio sem par, as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, deleitáveis tufos de arvoredo, fragrância dos perfumes e das brisas, cálices com as flores da juventude, de reflexos violetas e de branda penumbra.
O poeta Idrisi elogiou a pureza de linguagem e a cultura dos seus habitantes. A tendência dos silvenses para a poesia era proverbial. Qazwini não hesitou em dizer que, em Silves, qualquer lavrador, atrás do seu arado, sabia compor versos e Al-Maqqari reafirma que aí, qualquer criança, mesmo de pouca idade, era capaz de manter um diálogo em verso.
Foi em Silves, à beira-rio, num lugar chamado “Pradaria de Prata”, que o então ainda príncipe Al-Mu’tamid conheceria ‘Itimad Ar-Rumaykiyya, uma jovem escrava condutora de mulas e, mais tarde, sua esposa, numa relação nascida no instante em que esta, eloquentemente, empreendeu completar um verso inacabado do pequeno rei, grande poeta, a seu amigo Ibn ‘Ammar.
É sobretudo na época dos Múridas que Silves atinge o auge da sua opulência, em meados do século XII. As suas opulentas casas e mercados, verdadeiros centros culturais, atraiam artistas e poetas e celebrizaram o conhecido “Palácio das Varandas” (“qasr ash-sharajib”), lembrando uma autêntica visão de brilho, arte e esplendor das “Mil e Uma Noites”. Evocar o “qasr ash-sharajib” é celebrar uma época, o evo e a propensão de vida dos luso-árabes. Não obstante ter sido iniciado em período romano, o palácio sofreu inegavelmente a influência do requintado gosto árabe, que se atesta nas características torres e muralhas. Shilb, tal como era conhecida Silves na altura, crescia, vendo instalar-se, pouco a pouco, na Hispânia muçulmana, uma grande anarquia que viria a facilitar mais tarde a “reconquista” cristã.
D. Sancho I compreende que a submissão da cidade significava a posse de todo o gharb. O domínio árabe em Silves tinha assim os dias contados e, em 1255, a cidade é incorporada definitivamente na nação portuguesa. O saque naquela a que chamaram justamente a “Pérola de Chencir”, quando se deu a cruzada de reconquistas, originou perdas incalculáveis. Segundo alvitre do holandês Reinhardt Dozy (1820-1883), deveriam ter existido no “sharajib” amuletos ou talismãs, pequenos objectos, talvez estatuetas de antigos deuses, acaso gemas preciosas, porventura coisas de significação cabalística, cuja presença constituía o estranho poder da segurança, de grandeza e glória do palácio e da dinastia que o habitasse e cujo afastamento significaria a ruína e a perdição.
Misticismo que confirma a afecção de enigma e de encanto que o castelo comunica a quem o admira, sobretudo de oriente, nos magníficos poentes de sangue, fogo e oiro.
Também a lenda tomou conta do “sharajib” e do castelo onde deve ter existido. Ao castelo se atribui a lenda das amendoeiras. Um rei mouro teria mandado plantar amendoeiras nos montes em redor, para dar a sua esposa, uma cristã do norte, a impressão da neve, a que ela se havia acostumado, e sem a qual vivia em nostalgia intensa. Desaparecidos os mouros de Silves, perpetuada ficou aí outra lenda, símbolo de saudade e de tragédia, a lenda da moura que surge na cisterna do castelo, na noite de S. João, à meia-noite, numa barquinha de oiro com remos de prata, entoando hinos dolentes da sua raça banida.
Quem hoje, do Monte da Jóia, em frente da cidade, contempla o castelo de Silves, com as suas altas torres albarrãs quadrangulares do século XII, a cerca urbana de alvenaria vermelha, em recortes heráldicos, as ameias, a torre de menagem, as seteiras e os adarves com degraus de pedra tosca, os seus terraços, varandins e arcos gigantescos, não duvida de que, nos seus interiores, possa ter havido elegantes residências principescas, como não contestará que tenha sido no forte alcácer que se viveu um dos mais apreciados e ascéticos períodos do Portugal d’ al-andalus.

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