sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Mês de Ramadão


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Os muçulmanos de todo o mundo iniciam já no próximo dia 16, e durante um mês, o período de jejum do Ramadão, ou “Ramazan” como é pronunciado no Afeganistão. O vocábulo Ramadão, na tradução literal do árabe “ramadhan” (raiz de “ramadha”, “arder”, ou “ar-ramadh”, de “calor intenso e escaldante”) foi usado pelos antigos árabes, nos primórdios do Islão, com o móbil de se designar o mês do jejum, denominação que perdurou até aos nossos dias. Para o Islão, é um mês com um significado muito especial dado que ele envolve um trinómio Jejum – Meditação – Penitência.
O Islão, tal como emerge do Alcorão ou como se formulou a partir da tradição, repousa sobre cinco deveres emblemáticos (“ash-sha’a’ir”), obrigações canónicas ou pilares (“al-arkan al-khams”), fundamentadas em dois desideratos básicos: na Fé – que se alicerça no Testemunho, na crença na Unidade de Deus, no Juízo Final e na missão de Muhammad (Maomé) como homem eleito por Deus para finalizar as missões dos profetas precedentes – e no comportamento – que consiste em cumprir as devoções prescritas (Oração, Jejum, Esmola e Peregrinação a Meca) e na observância dos mais elementares princípios da vida social.
O jejum, representa aos olhos de Deus, segundo a doutrina muçulmana, uma graça que não tem comparação com outros actos como a piedade e a adoração. Não possui o carácter de penitência que lhe é conferido pelo Cristianismo, dado que, enquanto abstinência, impõe um relaxe do corpo; fortalecendo a vontade, liberta o homem das suas paixões e purifica a sua espiritualidade por intermédio da renúncia e da privação.
O mês de Ramadão representa para os devotos muçulmanos de praticamente todas as idades e correntes de interpretação um sentimento especial de entusiasmo emocional e zelo religioso.
Relativamente ao “jejum” (“sawm”), o quarto cardinal da crença islâmica, Maomé acabará por marcar-lhe uma data específica: a 27ª noite do nono mês do calendário lunar muçulmano, o mês de “Ramadan”, explicitamente o “fogo do céu”, consagrada no Alcorão como “a noite do destino” ou “a noite de majestade”. O  mês da “Revelação”,consignado como o do abandono total e confiante a Deus (“at-tawakkul”). “A noite de majestade é melhor do que mil meses. Os anjos e o Espírito descem nessa noite, com autorização do Senhor, para todos os assuntos. Paz! Ela dura até ao amanhecer” (Alcorão, “al-qadr”, XCVIII: 3-5). Os últimos dez dias do mês do Ramadão são considerados especialmente abençoados, com destaque para esta noite. É, por essa razão, muito comum, neste período, os muçulmanos mais conservadores passarem imenso tempo em oração nas mesquitas, recitando o Alcorão.
Influiu também na escolha deste mês a circunstância de com ele se relacionarem várias supersticiosidades pré-islâmicas. Esta será a época em que os demónios estão amarrados, as portas do inferno cerradas e as sete entradas do paraíso abertas. Uma dessas entradas, chamada “rayyan”, está reservada especialmente, no dia da Ressurreição, aos que tiverem suportado a abstinência com rigor e humildade.
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O jejum de Ramadão é obrigatório para qualquer muçulmano responsável e apto e consiste na abstenção quotidiana e diurna (da alvorada até aos primeiros indícios do pôr do sol) de todo o tipo de alimentação, bebida, de tabaco, de contacto sexual, uso de perfumes, de tudo o que, em suma, possa deleitar o corpo. Salienta ainda a tradição que é preciso jejuar de boca e de pensamento. 
Durante o cumprimento do jejum não só se deve evitar pronunciar certas palavras como também ter pensamentos perniciosos, pois caso assim não se faça o jejum ficará destituído de qualquer valor religioso. O Alcorão dedica-lhe vários versículos. Por razões epistemológicas, merece a pena transcrever, por exemplo, no capítulo II, “al-baqarah”, versículo 183, o Alcorão alude: “Ó crentes! Foi-vos prescrito o jejum, da mesma forma como foi ordenado aos vossos antepassados, para que possais afastar a tentação”.
Os enfermos, as crianças que não atingiram ainda a idade da puberdade, os indivíduos com doenças mentais por se admitir não serem responsáveis pelas suas acções, os crentes a empreenderem viagens iguais ou superiores a cinquenta milhas contadas a partir da sua residência habitual, os idosos débeis, aqueles que têm de executar trabalhos pesados, as grávidas, as mulheres quando se encontram no período do ciclo menstrual (o máximo de dez dias), as que amamentam ou no período após o parto (até quarenta dias após o parto) estão isentas do jejum, neste mês, com a condição de cumprirem tantos dias sacrificiais quantos os que perderam pelas causas referidas.

(continua)


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