quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Oleiro e o Poeta

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O caso, na rua Bardauni [Bardauni é um dos muitos rios que banham o Líbano, com nascente nas altas montanhas de Sanneir e que embebe a graciosa e pitoresca cidade cristã de Zahlé, situada a 945 metros de altitude, muita famosa pelas suas belezas naturais], parecia, realmente, muito sério – uma rixa inesperada surgira entre o jovem Fauzi, o poeta, e Hammudah, o oleiro. Os curiosos amontoavam-se junto à casa do oleiro. Cruzavam-se as interrogações: “Que foi? O que se passou? Como foi?”
Um guarda, para evitar que o tumulto se agravasse, resolveu levar os dois litigantes à presença do «qadi», isto é, do juiz. Esse juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou em primeiro lugar o oleiro, que parecia o mais exaltado: “Mas, afinal, meu amigo, de que se trata? Parece-me que foste agredido. É verdade?”
“Sim, senhor juiz”, confirmou o oleiro desabridamente, “fui agredido na minha própria casa por este poeta. Estava, como de costume, a trabalhar na minha oficina, a preparar dois novos vasos coloridos que pretendia vender ao príncipe Farid, quando ouvi um ruído surdo e a seguir um baque. Percebi logo de que se tratava. O poeta Fauzi, que passava naquela ocasião na rua, tinha arremessado violentamente uma pedra e partira um dos vasos, um vaso já pronto que estava a secar junto à porta! Ora, senhor juiz, isso é um absurdo, um crime! Estou no meu direito de exigir uma indemnização!”
Voltou-se o juiz para o poeta e interpelou-o serenamente: “Que tens a alegar, meu amigo «sha’ir» (poeta)? Como justificas o teu estranho proceder?”
“Sábio «qadi»”, respondeu o jovem, “o caso é muito simples e quero crer que a razão penderá a meu favor: há três dias atrás voltava eu da mesquita quando, ao cruzar a rua Bardauni, em que mora o oleiro Hammudah, percebi que ele declamava um dos meus poemas. Notei, com tristeza, que os versos estavam errados. O oleiro mutilava os meus versos, sem qualquer sensibilidade. Aproximei-me dele e, delicadamente, ensinei-lhe a forma certa, que ele repetiu sem grande dificuldade. No dia seguinte, ao passar novamente pelo mesmo lugar, ouvi o oleiro repetir os mesmos versos deturpados, com a forma quebrada e erradíssima. Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a forma correcta e pedi-lhe que não tornasse a depreciar os meus poemas. Hoje, finalmente, regressava eu do trabalho quando, ao passar pela rua Bardauni, percebi que o oleiro declamava a minha linda poesia estropiando as rimas, estragando vergonhosamente os versos. Não me contive. Apanhei uma pedra do chão e atirei-a a um dos seus vasos, partindo-o. Como vê, senhor juiz, o meu procedimento não passou, afinal, da resposta de um poeta que se sente ferido na sua sensibilidade artística a um indivíduo grosseiro.”
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz, pausadamente dirigindo-se ao oleiro, declarou: “Que este caso, ó Hammudah, te sirva de lição no futuro! Procura respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as tuas obras! Se te julgavas com o direito de lascar o verso do poeta, achou-se também o poeta com o direito de quebrar o teu vaso. Lembra-te de que o poeta é o oleiro da frase, ao passo que o bom oleiro é o poeta da cerâmica!”
E a sentença do ilustre «qadi» foi a seguinte: “Determino, pois, que o oleiro Hammudah fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um dos seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância da venda repartida igualmente entre os dois.”
A notícia do caso espalhou-se pela cidade. O oleiro Hammudah vendeu muitos vasos com versos do poeta Fauzi. Graças a essa cumplicidade, depressa ficaram prósperos e ricos. E, melhor ainda, tornaram-se grandes amigos. O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, e encantava-se o poeta com os vasos admiráveis do oleiro.

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