domingo, 8 de abril de 2018

O Amor na Literatura Árabe

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“No princípio fez-se a poesia, e a prosa era a excepção. No princípio fez-se o mar, e a terra era a excepção. No princípio fez-se o seio, e o sopé era a excepção. No princípio foste tu... então se fizeram as mulheres” (Nizar Qabbani)

O Amor é o tema fundamental de quase toda a literatura, como é o tema essencial da própria vida. Mas o amor não ocupa o mesmo lugar em todas as vidas e também não preenche a mesma atmosfera em todas as literaturas. Na literatura árabe, o seu lugar tem sido difusamente predominante por aquela apetência tão intensa do árabe em galantear o belo, criando e verbalizando-lhe o prazer da poesia e que, talvez por isso também, pode ser compreendida e amada em qualquer época e país e através de todas as línguas.
Aconselha um provérbio árabe: “amai, pois o amor solta a língua do gago, ilumina o obtuso, torna o avaro generoso e inspira a todos a civilidade, a elegância e o refinamento”. O ensinamento não distingue entre as formas do amor, se bem que a literatura árabe as conheça todas, desde o amor erótico até ao amor platónico, passando pelo amor romântico e amor místico, tornando-se, graças a tamanha diversidade de abordagem e riqueza de estilo, a literatura por excelência do amor.

A linguagem do amor romântico, com o seu paraíso e o seu inferno, as escolhas volúveis e as paixões efémeras, o oscilar entre a constância e a infidelidade, entre o convite da carne e o apelo do coração, povoa a literatura árabe. E manifesta-se em poemas, contos, romances e meditações que estão entre os mais belos da literatura universal.
Os poetas e prosadores que celebraram este tipo de amor pertencem aos temperamentos e escolas mais profusas. Encontramos poetas como Abu Ibn Hazm (994-1064), o austero teólogo de Córdova que se dedicava a escrever tratados de metafísica e, um dia, compôs a famosa obra “O Colar da Pomba” ("tauq al-hamama”), na qual confessa o seu amor deleitoso pela filha adoptiva de seus pais. No outro extremo, poetas desde ‘Umar Ibn Abi-Rabiha, no século VI, até Bishara El-Khoury, no século XX, viveram para cantar a beleza feminina e celebrar a embriaguez que nasce do contacto com o corpo da mulher amada.
Na literatura árabe, o amor platónico não é um amor etéreo, como se podia supor. Produto do mesmo clima ardente e do mesmo sangue impetuoso, é um amor tão arrebatador e exigente quanto os demais. Um traço, porém, distingue-o: o apaixonado ama a uma só mulher e permanece-lhe fiel a vida inteira, mesmo quando as circunstâncias separam para sempre os dois enamorados. Privado da sua amada, o poeta prefere a solidão ou a morte. A idade de ouro do amor platónico, dos poemas de amor comoventes e delicados e das paixões profundas e duradouras, foi o século VII. Os seus expoentes mais eloquentes foram os célebres poetas Majnun Laila, Jamil, o amado de Bussaina, Kussaier, o apaixonado de Izza, Quays, o enamorado de Lubna e Orua, o amante de Afra. Um detalhe curioso: esses poetas são conhecidos, não pelo seu apelido, mas sim pelo nome próprio associado ao prenome da sua amada, como por exemplo Jamil Bussaina, Kussaier Izza, etc. Dois corações e dois nomes ligados para sempre num só...
O amor místico é também uma característica da literatura árabe. Os seus maiores arautos, poetas místicos, ascetas, santos e cantores do amor mais apaixonado, como Ibn Al-Arabi, Al-Hallaj (“o Cardador de Almas”; 857-922) e Ibn Al-Farid (“Filho do Tabelião”; 1181-1235), de seu nome verdadeiro Abu Hafs ‘Umar Ibn ‘Ali As-Sadani, conhecido como “o Príncipe dos Enamorados” – tamanha é a beleza e a profundidade dos seus poemas de amor –, pertencem à escola sufi que concebe a religião como o amor a Deus e compreende Deus, não como o mestre e o juiz, mas como a verdadeira essência do amor. A grandeza destes poetas foi conseguir combinar ascetismo e paixão, e assim chegamos a esses poemas de amor, belos entre todos, em que a exaltação amorosa ou báquica mais lancinante nada mais é do que o símbolo do amor dedicado a Deus.
Os biógrafos de Al-Farid relatam que este passou toda a sua vida desejando encontrar-se com o divino e que somente alcançou esse desígnio na hora da morte. Durante a sua agonia, terá murmurado: “esperei tanto tempo por um olhar de Ti... Oh, quanto sangue correu por esse desejo meu!”. E, sorrindo, expirou. A sua obra foi recolhida num compêndio admirável chamado “Divan”. Dos seus poemas, os mais célebres são: “nazm as-auluk” (“Poema dos Progressos do Místico”) e “al-khamria” (“Ode ao Vinho”), uma alegoria em que se glorifica o amor divino sob as aparências de um vinho capitoso.
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O fim de Al-Hallaj foi mais sublime ainda. Acusado de heresia por pregar que a essência da religião era o amor e não a teologia, foi condenado à pena capital. Flagelado, mutilado, crucificado e esquartejado, conservou-se fiel à sua paixão até ao último suspiro. Quando o tiraram da prisão para o executar, conta uma testemunha: “vi-o dançar de júbilo sobre os seus grilhões recitando “Aquele que me convida, para não parecer que me lesa, fez-me beber na taça em que Ele mesmo bebeu”. E quando foi erguido na cruz, ouvi-o entretendo-se em êxtase com Deus”.
Além do seu valor literário, esta excepcional diversidade das manifestações de amor tem um sugestivo valor humano. Amor erótico, amor romântico, amor platónico, amor místico, todo o coração contém provavelmente algo de todos estes anseios, embora em proporções variáveis. E os mais felizes foram aqueles que amaram (ou a Deus ou a um ser humano) ao ponto de se esquecerem de si mesmos na sua paixão e de se dedicarem inteiramente ao ser amado, mesmo que a própria morte estivesse nessa abnegação...

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