sexta-feira, 27 de abril de 2018

Médio Oriente - Síria - Ocidente: Entre o Sabre e o dedo no Gatilho (V)


Foto do autor
A guerra em curso no Médio Oriente constitui um dos conflitos mais complexos da actualidade, seja pelo grande número de actores envolvidos, seja pela teia de interesses e alianças existentes. O regime de al-Assad, principal protagonista no início da guerra, teve o seu papel redefinido a partir do momento em que o “Daesh” surgiu no conflito, inserindo um novo elemento que passaria a ser incorporado no cálculo geopolítico dos principais beligerantes. Como resultado, al-Assad deixou de ser o único alvo para os grupos rebeldes sírios e seus apoiantes, como a Arábia Saudita e os EUA, principalmente para estes, que tiveram a sua visão do regime sírio alterada, passando a vê-lo como um mal menor e até como uma sinergia capaz de conter o fundamentalismo islâmico na Síria.
Da mesma maneira, o rápido avanço dos extremistas no Iraque contribuiu para colocar os dois eternos antagonistas, Arábia Saudita e Irão, do mesmo lado, assim como levou Washington a reconsiderar a sua política com Teerão em face da ameaça que o “Daesh” passou a representar para a estabilidade da região. Deste modo, poder-se-á concluir que o avanço daquele grupo afeta profundamente a geopolítica não só da Síria e do Iraque, mas também do Médio Oriente como um todo, colocando em causa a própria existência da Síria e do Iraque da forma como os conhecemos presentemente. Embora não se possa prever os exactos desdobramentos deste conflito, é possível concluir que existe uma guerra antes e outra depois do advento do “Daesh” como uma das forças dominantes no jogo geopolítico destes dois países.
Foto do autor
Hoje o mundo árabe é “outro”. E está cada vez mais perto de nós. É presença diária nos noticiários, por onde nos chega visualmente sob a forma de frágeis embarcações carregadas de refugiados que fogem à guerra nos seus países, vindos do outro lado do mediterrâneo. Invade-nos de surpresa e provoca estupefacção com chocantes imagens icónicas de execuções sumárias, decapitações, tortura e delapidação patrimonial em nome de um terror sem fronteiras. Adentra-se-nos no quotidiano, na existência, nos ideais, nas relações inter-pessoais, políticas, religiosas, diplomáticas, militares e económicas. Na consciência colectiva.
O Médio Oriente alberga hoje em si diversos grupos étnicos, religiões, movimentos políticos, tal como noutros tempos. Nem sempre a convivência tem sido simples, fácil e pacífica, mas houve épocas em que existia um respeito mútuo, um consenso e, por isso, um clima de paz. Contudo, são nestes intercâmbios culturais, sociais, políticos e religiosos que a Humanidade mais se desenvolveu, adquirindo e melhorando conhecimento anteriores. Dado que o Homem se define sempre em relação ao outro, não se pode menosprezar o papel de outras culturas. Por muito utópico que isso possa parecer. Somos seres relacionais, dialogicamente empenhados e indelevelmente mergulhados na História. Mas não num tempo histórico que esteja fora de nós, que nos seja estranho. Daí que, se as águas do grande rio da História sempre nos banharam, não é menos verdade sermos também, em toda a densidade e sem fim, corpo integral desse rio. Somos também as águas desse rio. Mas tudo isso só tem sentido se soubermos respeitar as assimetrias, as culturas, os povos, as religiões, as liberdades.
A despeito de podermos extrair muitas reflexões justas e interessantes do ADN histórico e do esplendor do Médio Oriente, que foi e continua a ser atractivo, quer por desígnios naturais, quer por motivos geopolíticos, é um facto que a história vivida na Síria e no Iraque nos tem obsequiado com o mais variado género de ditérios onde é exibido o pletórico de “muharibun” medievais, esses “fida’i” (“devotos”) dedicados até à morte que pretendem o poder para aplicar um Islão redutor ou que escolhem o Islão como instrumento para conquistar o poder e instaurar o medo.
Foto do autor
Detenhamo-nos no impressionante rodízio de informação que ultimamente nos chega denunciando a situação efervescente vivida na Siria, no Iraque, e em outros países árabes à beira de implosão motivada por nacionalismos exacerbados, subsequentes assimetrias religiosas e rupturas do equilíbrio na área do poder político, social, económico e cultural. Estados que enfrentam problemas inquietantes de identidade dentro das suas fronteiras e que, nalguns casos, são alfobre de vários grupos radicais que levam a cabo acções premeditadas, amedrontando a humanidade com novos tipos de ameaças: o espectro do terrorismo e a certeza cada vez maior de que estamos na espiral da mais cruel das guerras. É uma espécie de regresso brutal à teologia da dominação, marcada pelos autos do terror. Uma ameaça que rege actualmente as relações internacionais e afecta toda a conjuntura política, económica, cultural e religiosa a nível mundial.
O uso da violência, levada a efeito contra pessoas ou contra o património, na tentativa de coagir ou intimidar governos ou sociedades para atingirem os objectivos políticos, religiosos ou ideológicos a que se propõem, passou a ser a modalidade mais comum de actuação de alguns movimentos radicais. Desta forma, o terrorismo ganhou maior expressão e atingiu dimensões nunca antes experimentadas na sua longa história, particularmente no que respeita ao “Daesh” que, nesse particular, elevou a capacidade de provocar o horror a nível mundial.
Se é certo que ninguém nos pode livrar da responsabilidade e do esforço de procurar uma solução, também não é menos verdade que nada existe nesta tendência que possa justificar a discriminação de uma cultura e de uma religião que têm tanto de imperscrutável quanto de magnificente. Nenhuma sabedoria pode aceitar essa divisão do mundo e a exclusão de qualquer povo ao seu direito de viver humanamente. A tolerância religiosa é um valor insuprimível e o Ocidente não deve cometer o erro de confundir a fé dos outros com o fanatismo de alguns. A passagem dos séculos e as diferenças políticas, culturais e religiosas poderão ter vindo a modificar estes contornos e a reduzir a possibilidade de se suscitarem formas evidentes de identificação comum. Mas todo esse desgaste não impedirá por certo que se justifique também a empatia pelo encontro de muitas afinidades, algumas com raízes inconscientes de uma mesma matriz profunda de valores, adormecidas na memória cultural de tempos antigos.
Palmyra (Foto do autor)
No limiar do Oriente e do Ocidente, Heraclito, mais de seis séculos antes da nossa era, formulava esta lei universal e eterna: “Tudo é um. A lei da vida é realizar a harmonia do Uno”. A Bíblia fala-nos num “homem feito à imagem de Deus” e, por sua vez, o “Al-Qur’an” (Alcorão) exulta o “mesmo homem a quem Deus insuflou o Seu espírito”. E a esta força, a esta crença magnânima de fraternização, co-extensiva à vida, chamaram Deus – o mesmo Deus que Santo Agostinho descobria como mais interior a si que ele próprio –, as três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
“Somos filhos da humana condição. Essa é a base da própria Criação: um sofre todos sofrem dano. Se és indiferente, como é que és humano?”, observou sabiamente, um dia, o poeta persa Saadi. E corrobora o Nobre Alcorão, no capítulo “al-maidah”, versículo 32 “(...) quem matou um ser humano, sem que este tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse morto todo o género humano; e quem salvar uma vida será considerado como se tivesse salvo toda a espécie humana”.
Os próximos tempos ditarão como se configurará a geopolítica do Médio Oriente. Porque a História está viva e as dinâmicas internacionais são mutáveis, muito pode ainda vir a resultar do actual incremento das actuais tensões neste quadrante. O futuro apresenta-se aí particularmente incerto. Os interesses externos e a rivalidade das potências podem vir a adoptar múltiplas formas, somando-se ao terrorismo outros factores a esta equação. Não devemos esquecer, acima de tudo, que cada novo desenvolvimento, cada manifestação involutiva deste fenómeno está associado a sofrimento humano, porventura difícil de percepcionar na sua tremenda realidade a “esta distância”, isto é, a partir da segurança e da estabilidade que, ainda assim, são oferecidas pelas sociedades ocidentais. Contudo, o impacto no Ocidente do que de negativo se passa no Médio Oriente não deve ser negligenciado, pondo em causa o ideal de sociedades abertas, democráticas e plurais. Esta é uma das realidades que, perpetrada mais longe ou mais perto, afecta indiscutivelmente o ideal do respeito pelas diferenças, pela tolerância, pelo ecumenismo, pelo proselitismo e pela defesa da liberdade.

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