terça-feira, 24 de abril de 2018

Médio Oriente - Síria - Ocidente: Entre o Sabre e o dedo no Gatilho (IV)


Aleppo (Foto do autor)
A guerra civil na República Árabe da Síria (“Al-Jumhuriyah al-Arabiyah As-Suriyah”) teve início no contexto da “Primavera Árabe” que irrompeu na Tunísia, em Dezembro de 2010, espalhando-se rapidamente pelo mundo árabe. O movimento começou com manifestações pacíficas que defendiam diferentes pretensões, com destaque para as reivindicações com carácter socioeconómico e as relacionadas com reformas democráticas. Em pouco tempo, a reivindicação predominante dos manifestantes passou a ser o fim do regime. À medida que os protestos anti al-Assad aumentavam, durante os primeiros meses de 2011, as forças de segurança sírias passaram a responder com maior violência, o que serviu para aumentar ainda mais as tensões. Nas primeiras semanas, al-Assad reagiu de forma conciliatória, tentando negociar com as lideranças oposicionistas, prometendo reformas e outras concessões. No entanto, não foram tomadas medidas práticas nessa direção e nenhum cronograma para as reformas foi estabelecido pelo presidente, sendo discutível se em algum momento haveria de facto qualquer intenção em serem implementadas quaisquer reformas democráticas.
Longe de se chegar a uma solução para a crise, a repressão do regime aumentou ao ponto de, aparentemente, acarretar deserções em massa por parte de militares sírios, solidários com a população civil, resultando na criação do “Exército Livre da Síria”, em Julho de 2011. Este capítulo como que ditou o fim da “Primavera Árabe” no país e o início da resistência armada das oposições sírias.
Inicialmente a oposição pegou em armas para lutar contra o regime, mas o conflito tornar-se-ia mais complexo durante estes praticamente seis anos, sobretudo com o surgimento em cena do “Daesh” que, aos poucos, foi tomando largas parcelas de terreno no território do Iraque e da Síria[1]. Hoje, numerosos grupos, bem como várias potências estrangeiras – regionais ou globais – estão envolvidas nesta guerra, com diferentes agendas, num território cada vez mais fragmentado, estando muito mais em jogo do que “somente” derrubar o presidente al-Assad.
Interior da Grande Mesquita de Damasco (Foto do autor)
No início do conflito, o exército sírio possuía 300 mil homens, sendo que, devido ao número de baixas e de deserções, os seus efectivos reduzir-se-iam a quase metade, acabando por ceder dois terços do território para o “Daesh” ou para a Frente “Al-Nusra” – ramo local da “al-qai’da”[2] – e outros grupos rebeldes. Actualmente o exército sírio controla bolsas estratégicas, mormente Damasco, Homs e Hama, no centro do país, o litoral e uma parte de Aleppo. Nestas regiões residirá 50% da população que ainda permanece na Síria. As milícias pró-regime contam com 150 a 200 mil homens. A principal, as “Forças de Defesa Nacional”, com 90 mil combatentes, foi criada em 2012, adicionando-lhes as milícias que vêm do Líbano, do Irão, do Iraque e do Afeganistão. A mais importante é a do Hezbollah[3] libanês, que segundo os analistas terá entre 5 a 8 mil combatentes. A Rússia é o aliado de maior peso do regime sírio e recentemente tornou-se ainda mais efectiva no terreno, reconstruíndo uma base no aeroporto de Latakia[4] (a oeste do país), dirigindo para lá aviões de combate, sistemas de defesa área e outros equipamentos modernos. De acordo com os mídia russos, pelo menos 1700 soldados russos terão sido lá colocados em permanência. O Irão, o principal aliado regional de al-Assad terá enviado 7 mil Guardas da Revolução para reforçar o exército, tendo ainda fornecido conselheiros militares e ajuda económica ao presidente sírio.
De um modo geral, esta guerra está configurada pelo envolvimento directo e predominante do regime de al-Assad, uma coligação ampla chamada genericamente de oposição síria e vários grupos associados, dos quais o “Daesh” é aquele que está a causar um maior impacto na geopolítica do país[5]. Além de uma guerra civil, o actual conflito na Síria também se caracteriza como uma espécie de guerra por “procuração”, dado o envolvimento directo ou indirecto de vários actores internacionais.
Palmyra (Foto do autor)
Nesse sentido, o confronto entre as duas maiores potências do mundo islâmico, a Arábia Saudita e o Irão, ganha uma dimensão de primordial importância. Os dois países disputam a liderança da comunidade islâmica internacional e possuem significantes diferenças religiosas, políticas, de visão do mundo e de interesses. Para além das fronteiras do Médio Oriente, o conflito na Síria envolve ainda potências globais como os EUA e a Rússia. Aliado da Síria desde os tempos da União Soviética, a Rússia, o maior fornecedor de ajuda militar à Síria juntamente com o Irão, tem bloqueado a aprovação de resoluções contra o regime de al-Assad no Conselho de Segurança das Nações Unidas, vetando iniciativas do órgão que buscam aprovar medidas severas contra Damasco. A própria ONU[6], em Agosto de 2013, declarava que existiam mais de 100 mil mortos no conflito interno da Síria e que o número de refugiados tinha ultrapassado os 6,25 milhões, sendo que 4,25 milhões seriam deslocados internos e mais 2 milhões de refugiados distribuídos pelos países vizinhos da periferia, nomeadamente Líbano, Turquia, Jordânia, Egipto e países do Magrebe. Não bastando a condição humanitária nas grandes cidades e vilas em Agosto de 2013 ser gravíssima[7], a utilização de armas químicas (gás sarin[8]) contra a população civil aprofundou ainda mais a pressão internacional contra o governo sírio. A somar a estes acontecimentos, os distúrbios internos no Líbano começaram a avolumar-se em função da polarização política do país, entre favoráveis e contrários ao actual governo sírio.
Por sua vez, os EUA mostraram ser um dos países mais críticos ao governo de al-Assad desde o início das hostilidades, demandando repetidamente o fim do regime e a instalação de um governo de transição. Para Washington, a “Primavera Árabe” e a degeneração que se seguiu criaram uma oportunidade propícia para a queda do regime sírio, objectivo dos norte-americanos desde, pelo menos, 2003. Fundamentalmente, a política externa norte-americana para Damasco é influenciada pelo papel da Síria no conflito com Israel, na sua interferência constante nas questões internas do Líbano e na aliança do presidente sírio com o Irão. Seguindo essa lógica e com o intuito de derrubar al-Assad, os Estados Unidos inicialmente ofereceram ajuda não letal aos rebeldes na resistência contra as Forças Armadas sírias, passando num segundo momento a fornecer armamento, o que não pode deixar de constituir um acrescido motivo de enorme preocupação pelo risco de as mesmas virem a cair, como de resto se verificou, em mãos de grupos considerados não confiáveis, dado o carácter heterogéneo da oposição síria.
(continua)





[1] O território sob seu controle terá uma dimensão semelhante à do Reino Unido, mesmo estando a sua presença confinada a centros populacionais, principais linhas de comunicação e outros pontos de interesse estratégico vital.
[2] “Quartel-general, a base, o pedestal, a norma, a regra, o dogma”; cujo plural é “al-qaua’id”; s. pl. f.). Organização constituída por células colaborativas e independentes que se tornou numa das faces do terrorismo e numa das mais conhecidas e temidas do mundo, particularmente após o ataque ao World Trade Center de Nova Iorque, em 11 de Setembro de 2001.
[3] “Hizbu’llah”; “Partido de Deus”; organização política e paramilitar shi’ita sediada no Líbano.
[4] Ou Laodiceia. Cidade síria e principal porto do país. O valor estratégico de Latakia deve-se ao facto de ter a sua localização perto da fronteira com a Turquia e permitir acesso às cidades e rotas de abastecimento, aquém e além da Montanha dos Curdos (“Jabal al-Akrad”). A província costeira de Latakia é o berço da família al-Assad.
[5] A par deste grupo, o mais bem organizado, o mais rico e o mais temido, sobretudo pelas atrocidades que pratica, supõe-se que poderão existir mais de 50 grupos, actores, grupos rivais e protagonistas sem qualquer tipo de coordenação entre si, a combater na Siria, dos quais se destacam, pela sua expressividade, os seguintes: a “Jabhat Al-Nusra”, o “Jaysh al-Muhajirin wa al-Ansar”, o “Ahar al-Sham”, o “Jaysh al-Islam”, a “Frente do Sul”, os curdos, os “Suqur al-Sahara” (“Falcões do Deserto”) ou “Suqur ash-Sham” (“Falcões da Síria”), as Brigadas “Kata’ib al-Ba`ath”, a Brigada “Liwa al-Quds”, o “Al-Sha’biyah Lijan”, a “Quwat ad-Difāʿ al-Watanī”, a FDN, o Exército de Libertação da Palestina (ELP), os “Shabiha” (“Fantasmas”), o “Mawtbo Fulhoyo Suryoyo”, o YPG (unidades de proteção popular), o “Exército do Povo” (“Al-Jaysh al-Sha’bi”), o “Liwa Fatemiyoun”, shi’itas afegãos, a “Liwa Abu Fadl Al-Abbas”, a Guarda Nacionalista Árabe, a “Qamishli Sootoro”, a “Resistência Síria” (anteriormente conhecida como “Liwa Iskandarun”), a milícia “Liwa al-Youm al-Mawud”, a unidade especial “Niru-ye Qods” ou Força “Quds” e os “Slavonic Corps”...
[6] Organização das Nações Unidas.
[7] Exceptuando Damasco e as regiões com forte presença das Forças Armadas, como as províncias de Tartus, Latakia e Swaida, regiões caracterizadas por serem habitadas pelas minorias alauítas, drusas e cristãs que apoiam o governo.
[8] Inspectores da ONU que visitaram a periferia de Damasco, no bairro de Jobar, confirmaram o uso de armas químicas contra civis no dia 21 de Agosto de 2013, mas não indicaram os responsáveis pelo ataque.

Sem comentários:

Enviar um comentário