sábado, 21 de abril de 2018

Médio Oriente - Síria - Ocidente: Entre o Sabre e o dedo no Gatilho (III)


Mesquita de Umayyad, Damasco (Foto do autor)
Banhada pelo Mar Mediterrâneo, a Síria faz fronteiras com a Turquia (a norte), o Iraque (a leste), o Reino da Jordânia (a sul), Israel (a sudoeste[1]) e Líbano (a oeste). A maior parte do território é coberta por desertos, sendo que apenas uma planície estreita segue ao longo da costa oeste do país. O sudoeste é pródigo em montanhas que separam o restante território precisamente dessa franja de deserto que detém a particularidade de ser constituído por rochas e cascalho, ao invés da normal areia. Os principais rios do país são o Orontes (ou ‘Asi), com 571 km de comprimento, e o Eufrates (al-Furat), com 2.800 km, e em cujas margens proliferam as tamareiras. Relativamente ao clima, a maior parte da Síria experimenta um clima seco, com invernos frios e verões muito quentes. Já a zona litoral é mais chuvosa e de temperaturas amenas. A capital da Síria, Damasco, que hoje atravessa uma dramática situação, é uma das mais antigas cidades habitadas do mundo, com uma história mais que decemilenar, tendo as prospecções arqueológicas revelado que a ocupação humana do lugar remonta ao período Neolítico. Fundada por volta do século VII a.C., teve várias ocupações que foram alterando a sua fisionomia e funcionalidade. O nome desta cidade omíada já aparece atestado na documentação cuneiforme de Ebla e na documentação egípcia do século XII a. C. grafado como “Dimashqi”.
Quando a família dos Banu Umayya, do clã quraysh[2] de Meca, tomou o poder califal islâmico em 661 (ano 41 da era islâmica), transferiu a sede do novel império árabe de Madinah para Damasco, conquistada aos bizantinos em 635. Fazia já duas décadas que o general fundador desta primeira dinastia califal apelidada de Umayyad (661-750), Mu’awiya Abu Sufyan, reinava nesse centro nevrálgico do Crescente Fértil – a região siro-palestina em sentido amplo – em nome do 3º califa ou sucessor do Profeta, ‘Uthman[3] Ibn ‘Affan, conhecido como “ad-dhur an-nurain” (“o detentor de duas luzes”), devido ao privilégio de ter tido como esposas duas filhas do profeta Maomé, respectivamente Ruqayyah e Kulssum.
A autoridade árabe instalada em Damasco conseguiu, desde o princípio, atrair os favores da população cristã local, mantendo o essencial das estruturas civis e eclesiásticas então estabelecidas. O general conquistador Khalid Ibn Al-Walid confiara a Mansur ibn Sarjún (Vítor, filho de Sérgio), o representante da população então cristã que tinha negociado os termos da capitulação, a máquina administrativa e financeira.
Com o decorrer do tempo, reforçava-se o entendimento entre os novos invasores vindos do deserto arábico e a população greco-aramaica de Damasco. Nas altas esferas do poder, havia até uma certa convivência pessoal que se estendia aos salões palatinos, quer na capital, quer nos “castelos de lazer” construídos nas franjas do deserto envolvente. A isso faria eco, quatro séculos mais tarde, o famoso antologista literário de Baghdad, Abul-Faraj al-Isfahani. Referia ele as sessões de poesia e música, regadas com bom vinho, que Yazid, o filho de Mu’awiya e seu sucessor no califado (680-683 d.C.), promovia com a presença do celebrado poeta árabe cristão al-Akhtal e o já mencionado Sarjún.
Damasco e a sua região envolvente beneficiaram desde sempre pelo facto de se situarem numa planície muito fértil irrigada pelo rio Barada (ou Abana), com os seus 84 km de comprimento, além de outros cursos de água como o Rio Pharpar, formando um amplo oásis hoje conhecido pelo nome de Ghuta, que foi sempre um pólo de atracção para diversas populações das estepes desérticas que a envolviam e que se foram acolhendo junto às faldas orientais das montanhas do Líbano, de onde provinha a indispensável madeira de cedro e a pedra para as construções.
Mesquita de Umayyad, Damasco (Foto do autor)
A região foi valorizada ao longo dos séculos pelos seus habitantes, de origem amorrita (povos semitas vindos do deserto sírio-árabe), com um diversificado sistema de irrigação que a tornou ainda mais próspera, o que contribuiu para um maior desenvolvimento urbano ao longo do II milénio a.C., embora nestes tempos recuados o nome de Damasco ainda não constasse nos textos. Sabe-se, sim, que durante algum tempo a cidade esteve subordinada ao poder de Mari, sendo a sua região conhecida como “país de Apum”, situada ao sul do reino de Qatna, também este vassalo daquela grande cidade do Eufrates. As fontes para o conhecimento da história pré-clássica de Damasco provêm em grande parte de textos externos porque da própria capital pouco ou nada existe, tendo-se perdido para sempre os documentos aramaicos de origem damascena. Analisando certos dados de carácter mais geral, de timbre religioso e cultural, que são comuns ao vasto espaço geográfico onde Damasco se inseria, conclui-se que era então muito venerado Adad, deus da tempestade (correspondente ao sumério Iskur), que entre os Arameus foi designado por Hadad, nome divino que surge integrado na onomástica de vários reis da Damasco aramaica no I milénio a.C. Nos povos semitas do Ocidente levantino Adad foi designado por Baal, um bem conhecido termo que tem o significado de “senhor” e que em Damasco correspondia à forma de Bel – o poderoso Adad era designado como Bel Purussi ou Bel Biri, isto é, o “senhor da decisão”. Entre os reis de Damasco que nos seus nomes teóforos integravam o nome do deus Adad (na sua versão de Hadad), conhecem-se para o I milénio, antes dos ataques assírios à cidade, o eficaz Ben-Hahad, que obteve vitórias contra o vizinho rei de Israel, e Hadadezer.
O nome da cidade também consta em textos egípcios datados do reinado de Tutmés III (1479-1425), nomeadamente numa lista de cidades cananaicas que aquele faraó subjugou e de quem recebia tributo. Damasco oscilou numa política dúbia entre os interesses do Egipto e os do reino do Mitanni, situado no Alto Eufrates, que na altura subsidiava a resistência de algumas cidades renitentes ao domínio egípcio, como Hamat e Kadech. Com a desagregação do reino do Mitanni, um novo poder despontou na região, também ele de origem indo-europeia, o reino do Hatti, cujo centro nevrálgico se situava na Anatólia, com a capital em Hatucha. Embora pressionada pelos Hititas, a cidade de Damasco manteve-se aparentemente fiel à aliança com o Egipto e no reinado do famoso rei Akhenaton (1353-1336) as “Cartas de Amarna” mencionam que “Dimasku” na região de Upi pertencia ao Egipto, desconhecendo-se no entanto se tinha uma guarnição egípcia. A cidade é ainda referida no texto das campanhas do grande rei hitita Supiluliuma, desconhecendo-se se ela chegou a ser ocupada.
Damasco (Foto do autor)
Quando no reinado de Ramsés II (1279-1213 a.C.) se dá a batalha de Kadech (1275) entre o exército hitita e seus aliados e o exército egípcio, entre os adversários do Egipto não consta a cidade de Damasco, que se terá mantido afastada do conflito, embora na sequência daquela batalha as tropas hititas tenham estacionado perto dela. Entretanto, os Arameus chegam e ocupam o fértil oásis damasceno a partir do século XI, tornando a discreta Damasco na capital de um dos mais poderosos reinos da Síria do Norte. Foi a partir de David, o seu herdeiro Salomão e com o rei Rezon que se iniciou o apogeu do reino de Damasco, que conheceu um período áureo, com as suas caravanas a percorrerem as diversas e distantes rotas que as levavam até ao Egipto, à Anatólia e à Mesopotâmia, além de que a cidade beneficiava também como ponto de passagem e de abastecimento dos grupos de comerciantes que circulavam pelas rotas caravaneiras e ali faziam escala entre as estepes áridas de leste e a costa mediterrânica, onde se situava o seu principal parceiro comercial, a rica cidade de Tiro.
Entretanto o avanço assírio continuou durante o século VIII a.C. e a pressão da Assíria culminou na batalha de Karkar, em que o reino de Damasco viu o seu exército ser derrotado juntamente com outros reinos coligados, entre os quais o de Israel. Ainda assim, Damasco recuperou da derrota e continuou a desempenhar um importante papel na resistência tenaz que opôs, liderando coligações de cidades da Síria do Norte. Finalmente a cidade cai sob Tiglate-Pileser III em 732, perdendo a independência e tornando-se a capital de uma província do império assírio, para depois no século VI cair sob a alçada de Nabucudonosor da Babilonia.
A dinastia dos Selêucidas[4], herdeiros do grande império de Alexandre Magno que ficaram com a zona da Síria e Mesopotâmia, dominaram a região de Damasco, tendo aí instalado uma colónia greco-macedónia que se desenvolveu rapidamente, sendo no entanto a milenar cidade ultrapassada por Antioquia, fundada junto ao Mediterrâneo. A partir do século I da era cristã, já sob domínio romano, Damasco tornou-se um empório comercial que se dedicava à tecelagem do linho e ao artesanato e à produção de instrumentos de metais nomeadamente de armas, até porque nas proximidades estacionavam várias legiões na instável fronteira com os Partos.
Tendo embora uma longa história que recupera vários milénios, da antiga cidade de Damasco pré-clássica e clássica, que foi a capital de um dos mais poderosos reinos aramaicos, pouco resta. Os principais vestígios da velha urbe estão hoje inacessíveis já que se encontram precisamente no local onde agora se ergue a grande mesquita de Damasco, a qual recobre vários edificios antigos de cariz religioso: romanos, selêucidas, aramaicos, até ao templo do deus Bel, que deveria ter sido no seu tempo de apogeu dos séculos X-VIII a. C. um notável edifício e um exemplo da arquitectura da Síria.
(continua)



[1] Os dois países mantêm um diferendo relativamente aos limites das suas fronteiras comuns.
[2] Tribo do profeta Maomé.
[3] Nas palavras árabes, cuja transliteração e fonética aqui são simplificadas, a acentuação gráfica visa garantir uma pronuncia que respeite tanto quanto possível a fonologia original das mesmas. Na maioria das vezes, corresponde a um alongamento vocálico. Por outro lado, lembremos que a repetição duma consoante aponta para uma intensidade fonética. O digrama th está para uma interdental à semelhança da pronuncia inglesa em thing, enquanto o dh é sonoro, como em this. O apóstrofe nessas palavras indica um golpe glotal no fim da palavra ou um hiato intervocálico ao cair entre duas vogais. Quanto ao apóstrofe invertido, ele indica uma fricativa gutural sonora bem típica do árabe. Típica também é a contração gutural produzindo um som surdo áspero, parecido com o som dos gansos, e que se transcreve com o haga.
[4] Estado helenista que existiu após a morte de Alexandre Magno, o Grande da Macedónia (em 323 a.C.). Entre 323 e 64 a.C. existiram mais de trinta reis desta dinastia. O ano geralmente usado para definir a data da fundação do Império Selêucida é o de 312 a.C., estabelecido na Babilónia pelo general Seleuco I Nicator.

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