quinta-feira, 19 de abril de 2018

Médio Oriente - Síria - Ocidente: Entre o Sabre e o dedo no Gatilho (II)

Palmyra (Foto do autor)

Devido à sua localização no mediterrâneo oriental, com uma área a rondar os 185.180 km² e em função da presença de grandes rios com terras cultiváveis, a posição geográfica da Síria foi sempre um ponto importante na ligação entre as potências ocidentais e a Ásia. Já o império romano havia utilizado os oásis de Palmira a fim de estabelecer as suas rotas de comércio entre o Crescente Fértil e a Ásia Central. A batalha por Damasco, na “Revolta Árabe”[1], de 1916 a 1918, liderada por Sayyid Husseyn bin Ali, “sharif” (líder religioso) e “amir” (ministro) de Meca, da família Hashemita[2], que procurava a criação de um grande Estado Árabe unificado, que se estenderia do Iraque ao Líbano, e da Península Arábica até a fronteira norte com a Turquia, foi crucial para desarticular o já combalido Império Turco Otomano no Médio Oriente. O apoio dado aos ingleses na I Guerra Mundial, com o intuito de expulsar as forças turcas da região, teria como objectivo a criação desse grande Estado Árabe.
Porém, em função dos acordos secretos de Sykes-Picot, entre o Reino Unido e a França, a região tornar-se-ia uma zona de influência de britânicos e franceses. Com o fim da “Revolta Árabe” e o fim da I Guerra Mundial, a promessa feita a Husseyn e a seus filhos pelos britânicos quanto à criação do tal “Estado Árabe” unificado não foi cumprida. Os franceses receberam da Liga das Nações, em 1920, o mandato dos actuais Estados do Líbano e da Síria, enquanto os britânicos tornaram-se, por assim dizer, “mandatários” da Palestina, do Iraque e da Transjordânia. A “Grande Síria” de incumbência francesa nesse momento histórico era formada pelos actuais Líbano, Síria e a província Turca de Hatay, sendo importante salientar que tanto o Líbano como a Síria são sociedades marcadas pela presença de minorias étnicas e religiosas consideráveis, elemento fundamental para o entendimento dos problemas que a região vivencia. Em 1920, a França elaborou um censo demográfico da região, a fim de dividir as terras sob o seu controle, prenunciando uma futura fragmentação do território em pequenas repúblicas, enquanto os britânicos privilegiaram a criação de monarquias constitucionais sob as suas possessões.
"Krak des Chevaliers" (Foto do autor)
O resultado do censo francês levou à criação de seis províncias na “Grande Síria”, onde o aspecto confessional seria nuclear para a criação dos futuros “Estados”, mormente o Estado de Aleppo, o Estado de Damasco, o Estado de “Jabal Druze”[3], o Estado Alauíta[4], a Província de Alexandreta (Hatay) e o “Grande Líbano”[5]. Cada um destes Estados estaria sob a responsabilidade de uma elite confessional, tutelada pela França.
Desde a sua independência, em 17 de Abril de 1946, a história política da Síria tem sido marcada por vincados eventos. A disputa de poder pelo domínio do país gerou, até 1971, uma série de golpes de estado. De 1946 a 1958, a Síria foi governada por dez presidentes. O egípcio Gamal Abdel Nasser foi presidente da República Árabe Unida (“Al-Jumhuriyah al-Arabiyah al-Muttahidah”) durante a existência desta, de 1 de Fevereiro de 1958 a 1961, resultado da união entre o Egipto e a Síria. Com o fim da RAU em 1961, na sequência de um golpe de estado, o partido Baath[6] sírio teve um papel fundamental para a transformação política da Síria, sendo que em dois anos toma efectivamente a soberania do país, reforçando o seu carácter Pan-arabista e socialista.
De 1961 a 1970, sete presidentes ocuparam o cargo mais alto do executivo do país[7] até que, em 22 de Fevereiro de 1971, o oficial da Força Aérea com fortes laços à União Soviética, Hafiz al-Assad, toma o poder através de um golpe militar. Contudo, ao contrário dos seus antecessores, consegue manter-se no governo até 2000, ano da sua morte. A transição política do seu governo foi feita através do seu filho, Bashar al-Assad, nesse mesmo ano, permanecendo este no poder até aos dias de hoje.
Hafiz al-Assad era de uma família modesta e fazia parte de uma minoria religiosa na Síria, os alauítas. Este carácter minoritário sempre esteve presente no seu governo, pois procurava frequentemente formas de governabilidade que permitissem a ascensão socioeconómica e política da sua minoria, bem como dos cristãos e drusos, muitas das vezes em detrimento da maioria sunita. Este sucinto retrato das sucessões presidenciais na Síria revela a complexidade da composição política no país, sendo que, somente a partir de 1971, o presidente Hafiz al-Assad cria as condições para controlar mais firmemente as Forças Armadas e os principais grupos político-confessionais do país. A maior presença das minorias nas Forças Armadas, bem como em cargos políticos e na burocracia síria, criou um grupo altamente fiel ao presidente e à sua família, o que pode ser constatado claramente na guerra civil iniciada em 2011.
Após a morte de Hafiz al-Assad, em 10 de junho de 2000, foi feito um referendo popular para legitimar a condução do seu filho, Bashar, ao poder, com apenas 34 anos de idade. Para isso, a própria constituição síria teve de ser alterada para diminuir a idade mínima permitida para ocupar o cargo de presidente. Bashar manteve as suas alianças locais como no período de seu pai, suportado principalmente no conjunto de acordos com as minorias. Num primeiro momento parecia que o novo presidente poderia trazer mudanças reais ao regime sírio em função da sua formação europeia (especializado em oftalmologista em Londres, Inglaterra) e em virtude da sua jovialidade. Se bem que, nos primeiros anos, tenham sido efectuadas transformações esporádicas como, por exemplo, medidas de revitalização da economia, reforma das instituições de ensino, maior liberdade no acesso à informação (nomeadamente à Internet) e outras tentativas de retirar a Síria do seu isolamento político, fomentando reformas no sistema fiscal com o objectivo de atrair investimentos e aumentar a competitividade das empresas nacionais, com o tempo, porém, começou a ser evidente que as forças políticas que sustentavam o governo sírio não permitiriam uma mudança mais profunda no «status quo» do regime.
(continua)


[1]At’thawra al-‘Arabiya”.
[2] A dinastia hashemita tem origem no Hejaz, no atual Reino da Arábia Saudita. Os hashemitas traçam a sua descendência de Hashim ibn ‘Abd al-Manaf, bisavô do profeta Muhammad.
[3]Jabal Druze é uma transliteração do árabe que significa “montanha Drusa” ou “montanha dos Drusos”. Esta minoria religiosa ocupou áreas montanhosas do Líbano e da Síria, em função das perseguições que sofreu de outras ramificações do Islão, semelhante ao caso dos alauítas na Síria e dos Cristãos maronitas no Líbano, que também se caracterizaram por ocupar áreas montanhosas.
[4] Os alauítas são uma minoria religiosa muçulmana, ligada ao ramo shi’ita, com forte devoção a ‘Ali, genro do profeta Maomé, considerado pelos shi’itas como o primeiro califa “Rashidun”, ou seja “O Bem Guiado”. A sua maior expressividade é na Síria e são conhecidos por celebrar um calendário de festividades religiosas que mistura datas muçulmanas e cristãs. Não devem ser confundidos com os Alevitas, minoria religiosa da Turquia, nem com a dinastia alauíta que governa o Reino de Marrocos.
[5] O termo “Grande Líbano” foi cunhado em função da anexação de parte do território Sírio no período do mandato Francês. O “pequeno Líbano” tinha como limite oriental o Monte Líbano. Com o mandato francês proclamado em 1 de Setembro de 1920 pelo general francês Henri Gouraud, este limite estendeu-se até à cordilheira do Antilíbano, englobando todo o Vale do Bekka. A parte sul e norte também foram incluídas, integrando as cidades de Saída e Tiro ao sul, e Trípoli, a norte. Esta configuração territorial será a fronteira oficial da República do Líbano, formalmente reconhecida pelas Nações Unidas em 1946.
[6] O Partido Socialista Baath ou Ba’ath, forma abreviada de “Hizb Al-Ba’ath Al-‘Arabi Al-Ishtiraki” (“Partido da Ressurreição”) pedia a unificação do mundo árabe num único estado, defendendo a mistura ideológica do nacionalismo árabe, do pan-arabismo, o socialismo árabe e o anti-imperialismo.
[7] Maamun al-Kuzbari, Izzat al-Nuss, Nazim al-Kudsi, Lu’ay Al-Atassi, Amin al-Hafiz, Nureddin al-Atassi e Ahmad al-Khatib.

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