segunda-feira, 16 de abril de 2018

Médio Oriente - Síria - Ocidente: Entre o Sabre e o dedo no Gatilho

Estátua de Salah ad-Din, em Damasco (foto do autor)

A Síria é hoje o epicentro de uma batalha que reúne vários actores e protagonistas, desde milícias radicais a grupos rivais, de variadas correntes ideológicas e inspirações diversas, que se formaram no país em oposição ao presidente Bashar al-Assad, às grandes potências regionais inimigas e aos aliados históricos, permanecendo o Médio Oriente à mercê das metástases de uma guerra que, a acontecer, será interminável no tempo e desastrosa nas consequências. E que, ademais, poderá estender os seus insidiosos tentáculos alastrando além-região, uma vez que o conflito possui, outrossim, todos os ingredientes passíveis de reacender contendas antigas. À medida que os interesses geopolíticos e a vontade de hegemonia das partes envolvidas se vão afirmando, os entendimentos tornam-se cada vez mais difíceis. Não estamos ainda em condições de esboçar uma previsão das rupturas que as actuais convulsões originarão, mas poderá bem ser o desaferrolhar da caixa de Pandora. O Médio Oriente novamente a mover-se perigosamente sob o ovo da serpente, entre o volátil balançar do sabre e a instável fragilidade do dedo no gatilho. Um “acidente” que, em certa medida, seria o que Epicuro chamava “o acidente dos acidentes”. É o mundo a tocar o seu próprio inferno.
Se há lugares predestinados a influenciar profundamente a evolução da humanidade, um deles é, sem dúvida, a região geoestratégica onde se inserem a Península Arábica e o Golfo Pérsico. Berço de civilizações, origem de religiões universais, são o elo de ligação e simultaneamente encruzilhada de três continentes. É ali que se encontram as maiores reservas de petróleo do mundo – líquido a que os beduínos apelidam, com realista sabedoria, “urina do diabo” –, o poderoso “deus” do mundo actual que continua a legitimar propósitos. É ali que o fluir das paixões facilmente se pode plasmar, fundir e confundir nas mais brilhantes e prolongadas deduções lógicas. Ali, onde Maquiavel muito teria que aprender, tudo é possível...
Damasco (foto do autor)
O Médio Oriente é hoje uma região pautada pela instabilidade como consequência de um conjunto de acontecimentos militares e políticos, mormente a invasão do Iraque, em 2003, e a chamada “Primavera Árabe”, em finais de 2010. Em pouco mais de uma década os países da região assistiram a profundas mudanças instauradoras de instabilidade e de violência.
Sopesando certos dados de carácter mais geral, lembremo-nos de que a Península Arábica começou a conhecer, no primeiro milénio antes de Cristo, uma longa história de conquistas e uma brilhante civilização, baseada na agricultura e num comércio activo favorecido pela posição limítrofe entre o Extremo Oriente e o mundo mediterrânico. Inclusivamente atraídos por esta uberdade, os romanos enviaram, em 24 a.C., uma expedição chefiada por Élio Galo, governador do Egipto durante o reinado de Augusto, que nunca chegou a atingir o seu objectivo, perdida que ficou na enormidade do deserto. E depois desta, tantas outras odisseias, aventuras, conquistas e conquistadores – Assurbanípal, Dario, Alexandre, César –, e outros tamanhos e perenes factores que imprimiram à História uma dinâmica universal e inextinguível que, apesar de todas as lamentáveis convulsões, soube consubstanciar elementos civilizacionais de referência e uma cultura única, específica, de refinada riqueza, deixando quase intactas as amostras vitais de um povo com o recanto remoto dos seus segredos milenares, onde a vivacidade pitoresca do passado e o quadro expressivo do presente ainda se cortejam e completam.
Sequentemente também a história da Síria está intimamente ligada aos processos de expansão das grandes civilizações antigas e das potências modernas. Pesquisas arqueológicas recentes revelam que a ocupação da região que actualmente corresponde a este país, terá ocorrido há mais de 5 mil anos. Esse facto proporcionou ao país uma série de fantásticos elementos históricos, como sítios arqueológicos, ruínas romanas na cidade de Palmira (ou Palmyra), castelos medievais da época das Cruzadas (como o célebre “Krak des Chevaliers[1]) e construções de inspiração islâmica na cidade de Damasco.
(continua)



[1] Em árabe “Qala’at al-Husn”. A expressão “Krak” ou “Karak” designa um tipo de fortificação erguida no século XII e no século XIII pelos cruzados, para assegurar a defesa dos chamados “Reinos Latinos do Oriente”. Erguido sob um esporão rochoso do deserto sírio, a pouco mais de 40 km a oeste de Homs, possui a forma e a função mais que perfeitas para uma defesa contra cercos, alojamento de tropas e guarda de arsenal. O “Krak des Chevaliers” é classificado pela UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization/ Organizacao das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura) como Património Mundial desde 2006.

1 comentário:

  1. Cíclico, meu caro amigo! Sejam os Balcãs, sejam eventos de indole natural, o planeta auto conserva-se, ele próprio se encarrega de escrever a estória.

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