segunda-feira, 12 de março de 2018

O Tesouro de 'Alima


“Suponde que um homem conhece tudo o que há nos livros de Aristóteles, mas não faz coisa alguma das que nele há, enquanto outro homem as põe em prática sem possuir a ciência. Será mais excelente o ignorante que pratica a virtude que o outro que a não pratica ainda que a conheça.” (Abu Nasr Al-Farabi).

Existiu, outrora, na Babilónia, a famosa cidade dos «Jardins Suspensos», um pobre e modesto alfaiate chamado Ziriak, homem humilde e trabalhador que, pelas suas boas qualidades e dotes de coração, granjeara muitas simpatias no bairro em que morava.
Ziriak passava o dia inteiro, da manhã à noite, a cortar e a coser as roupas dos seus numerosos fregueses e, embora paupérrimo, não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo, senhor de muitos palácios e de grandes tesouros. Ouvira contar, em palestras com estrangeiros vindos do Egipto, da Síria, da Grécia e da Fenícia, histórias prodigiosas de aventureiros que haviam descoberto, por acaso, no interior de cavernas, baús de ouro, cofres crivados de brilhantes, luras sórdidas que guardavam caixas pesadíssimas a transbordar de pérolas, mimoso fruto da rapina de bárbaros cartagineses.
E não poderia ele, à semelhança desses aventureiros felizes, descobrir um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, de um momento para o outro, mais rico do que o poderoso rei da sua cidade? Assim meditava o bondoso Ziriak, divagando por tão longínquas riquezas, quando lhe bateu à porta de casa um mercador da Fenícia, que vendia tapetes, caixas de ébano, bolas coloridas, imagens, pedras e uma infinidade de outros objectos extravagantes tão apreciados pelos babilónios.
Por mera curiosidade, começou Ziriak a examinar as bugigangas que o vendedor lhe oferecia, quando descobriu, entre elas, uma espécie de almanaque. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o traficante. E custava apenas três dinares. Era muito dinheiro para o pobre alfaiate mas, apesar disso, para possuir objecto tão curioso e raro, Ziriak concordou em pagar essa quantia. Tratou, sem demora, de examinar cuidadosamente a raridade que havia adquirido. Qual não foi a sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, uma legenda escrita em complicados caracteres caldaicos: «o tesouro de ‘Alima, enterrado pelo génio do mesmo nome para lá do mar de Motaleh Kardan, entre as montanhas do ‘Amal, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha a encontrá-lo».
Yallah! Aquele livro maravilhoso, cheio de mistério, ensinava, com certeza, onde se encontrava algum esplendor fabuloso, o tesouro de ‘Alima! Mas que tesouro seria esse?! E onde ficaria o mar de Motaleh Kardan?! E ‘Amal! Que montanhas seriam essas que encerravam todo o ouro fabuloso de um génio?!
E o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, a ver se descobria, custasse o que custasse, o segredo de ‘Alima, para se apoderar do tesouro imenso, que o capricho do seu possuidor fizera enterrar nalguma gruta perdida entre as montanhas.
As primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos. Ziriak foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialectos persas, o complicado idioma dos judeus. Ao fim de dois anos, deixava Ziriak a antiga profissão de alfaiate, e passava a ser o intérprete do rei, pois na cidade não havia quem soubesse tantos idiomas estrangeiros. O cargo de intérprete do rei era bem rendoso. Ademais, Ziriak morava numa grande casa, tinha muitos criados e todos os nobres da corte o saudavam respeitosamente.
Não desistiu, porém, o esforçado Ziriak, de descobrir o grande mistério de ‘Alima. Continuando a ler o livro encantado, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. E a fim de ir compreendendo o que lia, foi obrigado a estudar matemática com calculistas da cidade, tornando-se, ao cabo de pouco tempo, grande conhecedor das complicadas transformações aritméticas.
Graças a esses novos conhecimentos adquiridos, pôde Ziriak, volvidos três anos, calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o Eufrates. Esse trabalho agradou tanto ao rei, que o monarca resolveu nomeá-lo para exercer o cargo de grão-vizir. O antigo e humilde alfaiate passava, assim, a ser um dos homens mais notáveis da cidade. Activo e sempre empenhado em desvendar o segredo do tal livro, foi compelido a estudar profundamente as leis, os princípios religiosos do seu país e os do povo caldeu. Com o auxílio desses novos conhecimentos, conseguiu Ziriak, após outros dois anos, resolver uma antiga contenda judicial que nenhum dos outros doutores havera conseguido solucionar. Devido a esse feito, foi o nosso esforçado herói ocupar o elevado cargo de ministro.
Mas – coisa interessante! – Ziriak não conhecia ainda o segredo do livro de ‘Alima, embora já tivesse lido e relido, várias vezes ao longo dos anos, todas as páginas, sem omitir uma. Como poderia ele penetrar naquele mistério?
E um dia, cavaqueando com um venerando sacerdote, teve ocasião de referir-se à incógnita que o atormentava. Riu-se o bom religioso, ao ouvir a ingénua confissão do grande vizir e, afeito a decifrar os maiores enigmas da vida, assim falou: “O tesouro de ‘Alima já está em vosso poder, meu senhor! Por privilégio desse livro misterioso é que adquiristes tamanho conhecimento, que vos proporcionou os invejáveis bens que ora possuis. ‘Alima significa «Saber». O mar de Motaleh Kardan é a vossa dedicação ao «Estudo» e ‘Amal quer dizer «Trabalho». Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os que se ocultam no seio da terra ou sob os abismos do mar”.
Tinha razão o esclarecido sacerdote. ‘Alima, o génio, guarda realmente um tesouro valiosíssimo, que qualquer homem esforçado, humilde e inteligente pode conseguir. Essa riqueza prodigiosa não se acha, contudo, perdida no seio da terra nem nas profundezas dos mares. Encontramo-la sim, ao longo do tempo, o melhor mestre, nos bons livros, que proporcionando saber aos homens, abrem, para aqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade, as grutas maravilhosas de mil tesouros encantados. Essa é, insofismavelmente, a verdadeira fortuna para quem a busca do saber será sempre o seu destino, para que a ignorância jamais seja a sua ruína...

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