segunda-feira, 26 de março de 2018

O Shaykh Generoso

Em tempo de Páscoa, um conto de tradição oral com ensinamento e sabedoria de sempre, transversal a todo o Ser Humano...

Quando o shaykh Abdullah atravessava as ruas tortuosas de Marraquexe, os homens paravam, respeitosos, a cada esquina, para saudá-lo: “Salam! Paz ao mais generoso dos shuiuk! Allah badiq yah sidi! Deus vos conduza, senhor! Seja o paraíso a morada de vossos pais!" 
Ao ouvir aquelas expressões tão eloquentes, que traduziam o sentimento de gratidão que vivia na alma do povo, uma dúvida insinuava-se no meu espírito: Abdullah seria, realmente, merecedor daquelas homenagens? Não haveria exageros em sublinhar-se o seu nome com tamanho colorido da fama?
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Um dia, afinal, levou-me o destino a assistir a uma cena que desmontou esta dúvida. Achava-me eu no pátio da mesquita de Iazid, na companhia de Abdullah e de um plumitivo amigo de Casablanca. Conversávamos, descontraídos, quando se aproximou de nós um ancião andrajoso e trôpego que, com voz arrastada e humilde, implorou “uma esmola pelo amor de Deus!”. Abdullah tirou imediatamente da bolsa uma rica moeda de ouro e depositou-a nas mãos trémulas do pobre velho. Ao receber a preciosa coroa, o mendicante ergueu os braços para o céu e exclamou: “Yah abu’l jazl! Ó pai da excelência! Seja Allah, Ar-Rahman (“o Invisível”, um dos “Nomes Belos de Deus”, na religião islâmica), o vosso guia e amparo e que a sombra da ventura seja a vossa própria sombra!”
Ninguém poderá avaliar o espanto que me invadiu quando vi o shaykh dirigir-se ao mendigo, tirar-lhe a peça de ouro que momentos antes lhe dera e, em troca, meter-lhe nas mãos um dinar de prata. “Espera, meu velho. Enganei-me ao tirar da bolsa o dinheiro.” E, apontando para o dinar de prata, soltou esta frase: “É esta a moeda que pretendia oferecer-te!”
O pedinte, depois de revirar entre os dedos a rutilante moeda, de valor bem menor que a primeira, fez ouvir novamente os protestos da sua gratidão:
“Yah abu’l jul! Ó pai da bondade! Que Allah, Ar-Rahim (“o Misericordioso”), abençoe vossos filhos e os filhos de vossos filhos! Que a alegria viva constantemente em vosso lar!”
Maior ainda foi a minha surpresa quando vi o pecunioso Abdullah, alegando novo equívoco, aproximar-se outra vez do pobre, arrebatar-lhe das mãos o dinar de prata e dar-lhe, em troca, com maior descaso, uma ouquia, isto é, uma moeda de bronze de ínfimo valor. “Sinto contrariar-te”, disse o rico shaykh ao esfrangalhado mendigo, “mas no momento só posso dispor desta ouquia.” Engoli em seco, constrangido com aquela situação, incomodado com o modo como aquele arrogante homem, de vida aparatosa e brilhante, tripudiava sobre a miséria alheia.
Sem demonstrar o mais leve ressentimento de contrariedade, como se o seu coração já estivesse impermeável a todas as afrontas e indignidades da vida, o mendigo ajoelhou-se aos pés do potentado shaykh e assim falou, com um pasmo crédulo na face: “Pelo manto do nosso glorioso Profeta! Yah abu’l kamaul! Ó pai da perfeição! Que a generosidade de Allah, o Sapientíssimo, caia, para sempre, sobre os vossos ombros e que as vossas mãos dadivosas possam, por muitos e muitos anos, auxiliar os infelizes e desamparados! Seja a felicidade a luz de vossos olhos!”
Aquelas palavras, impressionantes pela sinceridade com que eram ditas, ecoavam mordentes no meu coração. O meu primeiro ímpeto foi de me afastar imediatamente dali. O literato, de braços cruzados sobre o peito, permanecia ridente, impassível, como se estivesse assistindo ao caso mais trivial do dia. Abdullah, pousando a mão no ombro do mendigo, aconselhou-o com irritante mansidão: “Leva esta ouquia à casa de Hassan, o da makhbazat (padaria), compra um pão e diz-lhe que vais da minha parte!”
No dia seguinte, encontrava-me eu no suq de El-Quemis, à conversa com Fauzi Samir, um negociante de Damasco, quando avistei Abdullah, que passava a poucos passos de nós. O sírio, que se encontrava ao meu lado, dirigiu um afectuoso “salam” ao shaykh: “Yah abu-‘l nuzzaur! Ó pai da riqueza! Queira Allah, Al-A’ziz (“o Poderoso”), fazer-te cem vezes mais rico e mil vezes mais feliz!”
E notando que eu ficara impassível, silencioso, perguntou-me se, por acaso, eu não tinha a incomparável ventura de conhecer sidi Abdullah, o mais generoso dos "shuiuk". “Conheço-o de sobra”, respondi com sarcasmo. “Esse ricaço pode iludir e ilaquear toda a gente, menos a mim.”
E narrei-lhe, em termos acerbos, o episódio testemunhado na véspera.
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Decidido a esclarecer a verdade, respondeu-me o mercador damasceno: “Informaram-me ontem desse caso que tanto espanto causou ao teu espírito. A explicação da estranha atitude do shaykh é muito simples: quando sidi Abdullah avistou o carenciado ancião, receou tratar-se de um falso mendigo e quis experimentá-lo. Que fez? Deu-lhe uma moeda de ouro e, logo depois, alegando ter-se enganado, trocou a moeda por outra de prata, que valia, talvez, a quinta parte da primeira. Se o mendigo tivesse palavras de revolta, revelando alma sórdida e propensa à ingratidão, seria mandado em paz com a libra de ouro e com o dinar de prata. Tal, entretanto, não sucedeu. Vendo embora diminuída a esmola, ele não deixou de exaltar novamente a gratidão que sentia pelo generoso benfeitor. Que fez o shaykh? Procurou certificar-se mais uma vez da grandeza d’alma do infeliz. Pegou na moeda de prata que já lhe tinha dado e substituiu-a por uma de bronze. Se se tratasse de um tipo vulgar, com o espírito caldeado pela inveja e pelo despeito, decerto o bondoso shaykh teria sido injuriado por ter imposto aquela segunda troca. O pobre, no entanto, revelando possuir sentimentos nobres de paciência e resignação, mostrou-se conformado com a sorte, não se ofendeu com o pouco valor da esmola, nem se irritou com a perda dos dois outros valores.”
“E que ganhou, afinal, o mendigo?”, indaguei, arrastado pela curiosidade que o caso em mim despertara.
“Aquela ouquia de bronze”, resumiu o mercador, “estava marcada e levando-a, como o shaykh recomendara, ao bom amigo Hassan, da padaria, o mendigo foi incluído na relação dos pobres de Fátima, a sociedade mantida pelo dadivoso Abdullah. As pessoas socorridas por Fátima têm pão e agasalho para o resto dos seus dias. Eis aí a recompensa que alcançou o velho da mesquita. O maior auxílio que poderia desejar!”
Nesse momento avistei o shaykh, de pé, junto a uma das portas do suq. Na ânsia de reparar o erro do julgamento que tivera a leviandade de proferir contra ele, ergui o braço e exclamei bem alto: “Allah al-uahid badiq yah sidi! Deus, o Único, vos conduza, senhor!”
Verdadeiramente imperscrutável esta nossa natureza humana que, por vezes, afreimada por quaisquer mal-entendidos ou compelida por sentimentos menos dignos, nos desencaminha ao encontro de juízos de valor deturpados sobre pessoas, acções ou factos, baqueando-nos na tentação do prognóstico fácil e precipitado...

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