sexta-feira, 9 de março de 2018

O Livro do Destino

Determinou o acaso que a minha modesta experiência de vida tenha vindo a ser, sucessiva e progressivamente, enriquecida nas viagens que vou efectuando, com o conhecimento de variados lugares e, com mais interesse ainda, de múltiplas gentes e quantiosas sensibilidades. E esta viagem começa onde a última acaba. Numa das minhas primeiras benfazejas jornadas de peregrinação pessoal, interior e geográfica, achei-me em Qaryat Al-Fau, no Reino da Arábia Saudita, aonde me desloquei por cortesia da Universidade do Rei Al-Saud, daquele país. Al-Fau (“a fenda”) é um primitivo entreposto comercial das antigas caravanas que, nos distantes reinos de Saba’, Qataban e Hadramauth, atravessavam esta vasta região a sul da Península Arábica, a 700 km a sudoeste da cidade de Riyadh, a meio caminho de Najran, província sobranceira ao terrível deserto de “Rubz Al-Khali” (“quarto vazio”), a maior e mais atroz superfície ininterrupta de areia do mundo, com uma superfície de cerca de 647.500 Km² e com temperaturas que chegam a ultrapassar, à sombra, os 50ºC.
Certa noite, na quietude do deserto, num momento único de admirável vigília, quando se estende o corpo e a alma e ambas se tornam permeáveis a uma outra visão de si, enquanto contemplava o imenso espaço penetrando as estrelas cintilantes dobrando céu, no sítio onde se faz a osmose entre o paroxismo das coisas verdadeiras e sensíveis e nos procuramos descobrir, um ancião de nívea túnica aproximou-se e parou à minha frente.
Fixou-me demoradamente nos olhos como que para tentar decifrar quem eu era. Com decorosa amabilidade, começou a recitar uma estranha melopeia, incompreensíveis palíndromos, trocando comigo uma espécie de diálogo de saudação, interpelando mais ou menos isto: “Como estás, ó irmão dos beduínos? O céu é favorável à tua saúde?...”
A tudo isso eu respondia com um “Al-hamdu li-llah!”, que quer dizer “graças a Deus!”. Trocámos este diálogo por três vezes, até que ele, mastigando um pouco de seco “kishk” (planta de forma triangular, cujas sementes são geralmente de sabor picante), ocupou um lugar em volta da fogueira, e se me dirigiu desta forma: “Esquece, meu amigo, por um momento, as tristezas e as aflitivas preocupações. Aproxima o teu coração das obras em que acreditas, procurando conquistar grandes vitórias. Gozarás da saúde do corpo e da lucidez da mente. Senta-te aqui a meu lado e escuta, com religiosa atenção, esta história singular que deve ser contada cem mil vezes para que os homens de sentimento possam dela colher as tâmaras mais doces da beleza e da verdade”.
E a dulcificada fragrância do chá de menta envolveu-nos naquele conto: “Em nome de “Allah”, Clemente e Misericordioso!” – começou – “todos temos escrito no “Livro do Destino” a nossa página da vida, com tudo o que de bom ou de mau vai acontecer. “Maktub”! [está escrito!]”.
Depois de uma razia terrível que um impiedoso beduíno fizera num caravançará em Sulayyil, um velho feiticeiro, em sinal de gratidão por o ter salvo, deu-me um talismã raríssimo que continha uma pedra negra, pequenina, em forma de coração, encontrada, anos antes, no túmulo de um marabuto. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada na famosa “Gruta da Fatalidade”, onde se encontra o “Livro do Destino”. Viajei longos anos até ao alto das montanhas de Masirah, percorrendo as margens do “uadi al-hamda”, para além do deserto de Dahna, a fim de alcançar a gruta encantada. Um bondoso “jinn” [génio mágico da mitologia árabe, ser encantado cuja origem remonta à era pré-islâmica; suposta criatura situada algures entre os humanos e os espíritos], que estava de sentinela à porta, deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por breves minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Todavia, movido pelos mais torpes sentimentos de aversão e de vingança, abri a página da vida dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, prejudicar todos eles. Sem hesitar, num ímpeto de infâmia, acrescentei, no desenrolar da vida de cada um, os maiores tormentos, alijando todos os meus desafectos!”
“E na tua vida?” – indaguei, mirando-o com surpresa – “Que fizeste, ó caravaneiro, na página que o destino dedicara à tua própria existência?”
“Ah, meu amigo!” – atalhou o desconhecido, contorcendo as mãos – “Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci de fazer o bem a mim mesmo. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando pensei em tornar feliz a minha vida, tinha cessado o meu tempo. Repentinamente, surgiu-me na frente um “ifrit” feroz [“ifrit”, no fundo, designa um ser sobrenatural, um génio encantado, ao mesmo tempo maligno e esperto] que me agarrou com força, e depois de me arrancar das mãos o talismã, atirou-me para fora da gruta. Perdi os sentidos. Quando recuperei a consciência, estava muito longe da cava, para além de Al-Wusta, junto a um oásis no deserto de Oman, sem o talismã precioso!”
E concluiu, entre suspiros, com a voz cada vez mais rouca e baixa: “Perdi a única oportunidade que tive de ser rico, estimado e feliz!”...
Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hijaz encerrava profundo ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal aos seus semelhantes, se esquecem do bem que podem trazer a si próprios?
Uassalam!”

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