segunda-feira, 19 de março de 2018

Nowrūz: Ano Novo Persa


Nowruz, or Navroz, is the Persian New Year and the traditional festival marking the beginning of spring. The day is believed to promote peace, solidarity, reconciliation and neighbourliness, and is designed to be filled with good food, new clothes and quality time with loved ones.
The festival is observed in Middle Eastern, and Central and South Asian communities. The traditions associated with it date back around 3,500 years ago. Navroz was officially registered on the UNESCO List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity in 2009 and is celebrated on March 21, the day of the equinox.

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Iniciam-se amanhã as festividades do “Nowruz”, também transliterado como “Nowrūz”, “Noruz”, “Nooroz”, “Noh Ruz” ou “Navroz”, “Novo Dia”, data que equivale ao Equinócio da Primavera. Ano 1397. Esta data é calculada, em cada ano, no momento em que o Sol cruza o equador celeste e a noite e o dia são iguais.

O “Nowruz” está associado a várias tradições regionais, oriundas da religião zoroastriana. Os ritos que acompanham a festa incluem canções, danças, decoração da mesa simbólica (“haft-sin”), banquetes e distribuição de presentes entre famílias, amigos e vizinhos.
A Organização das Nações Unidas reconheceu, em 2010, o Dia Internacional do “Nowruz”, descrevendo-o como uma festa de primavera de origem persa que é celebrado há mais de 3.000 anos. A palavra “Nowruz”, efectivamente de origem persa, é formada pelas palavras “Now” que significa “novo” e “ruz”, “dia” ou “luz do dia”.
A saudação usual por esta ocasião é “Nowruz mubarak” (Feliz Ano Novo). 
O termo “Nowruz” aparece pela primeira vez em documentos do século II a.C., mas há razões para acreditar que a celebração seja bem mais antiga e que provavelmente seria já um dia importante durante a dinastia Aqueménida (cerca de 648 a.C. - 330 a.C.). É possível que o célebre complexo palaciano de Persépolis (ou pelo menos algumas das suas edificações, como a Apadana e o “Palácio das Cem Colunas”) tenha sido construído para ser utilizado nas celebrações do “Nowruz”.
As mais antigas referências a esta festividade remontam à época parto-arsácida (247 a.C. - 224 d.C.), existindo, outrossim, referências específicas à celebração, durante o reino de Vologases (51-78). Detalhes substanciais sobre a celebração do “Nowruz” aparecem desde o reinado de Artaxes I, fundador da dinastia Sassânida (224 - 650). Sob os reis sassânidas, o “Nowruz” era considerado como o dia mais importante do ano. A maior parte das tradições reais de “Nowruz” – como as audiências públicas do rei, os presentes e o perdão aos prisioneiros – foi estabelecida durante o período sassânida e chegou até à nossa época. Assim como a tradição do “Sadeh” (celebrado no meio do inverno), o“Nowruz” sobreviveu na Pérsia após a introdução do Islamismo, em 650. Há indicações de que os quatro grandes califas do Islão (Abu Bakr, ‘Umar Ibn Al-Khattab, Uthman Ibn Affan, ‘Ali Ibn Abi Talib) terão presidido a festividades do “Nowruz”, e que o dia seria feriado no período Abássida. Após a queda do califado e a restauração das dinastias persas, o “Nowruz” foi elevado a um nível ainda mais importante. 
Uma das personagens do imaginário folclórico associado ao “Nowruz” é Naneh Sarma, uma sábia anciã de cabelos brancos como a neve, costas arqueadas pela idade e de face enrugada, que terá vivido numa cabana no topo da Montanha Alborz. Também conhecida por “Avó Geada” ou “Senhora do Gelo”, representa o Inverno. Esta figura é a representante feminina do trio de personagens associados ao Ano Novo que inclui o Khawja Piruz e o Amu Nowruz, aquele que traz as flores do início da Primavera e presentes para as crianças, o que nos faz pensar que provavelmente possa ser, por analogia, um primo distante do Pai Natal ocidental.
Simbolizando a Primavera, Nowruz, o filho de Naneh Sarma, seria um jovem alto e belo e de tal forma gentil e amável com todas as criaturas que, por onde caminhava, concedia a vida, clima agradável, saúde e boa sorte a todos.
Relativamente ao Khawja Piruz, conta a tradição que, ainda hoje, em países como o Irão, durante a celebração do “Nowruz”, um bando de simpáticos trovadores conhecidos como “Haji Firuz”, com os rostos pintados de negro, vestidos com roupas coloridas de cetim e chapéus em forma de cone, provavelmente um resquício dos antigos guardiães do fogo zoroastrianos (acredita-se que a cor negra a cobrir o rosto representará o escuro das cinzas) desfilam pelas ruas, cantando e dançando com pandeiros, tambores e trombetas espalhando alegria e trazendo a todos bons votos para o novo ano. O nome destes personagens advirá de Khawja Piruz (“Khawja” significa “Mestre” e “Piruz” “vitória”, em persa). Alguns acreditam que a personagem de “Haji Firuz” costumava cantar nas ruas anunciando a todas as pessoas que a Primavera tinha chegado. Em troca, as pessoas davam-lhe presentes ou dinheiro por ter trazido boas notícias. Outros acreditam que a personagem de “Haji Firuz” estará relacionada com a criação de uma atmosfera feliz nas famílias. O Dia de Ano Novo deve começar com felicidade e alegria, para que durante o resto do ano as famílias continuem felizes.
Enquanto o “Haji Firuz” é um jovem e animado palhacinho que toca tamborim e dança anunciando a festa do Ano Novo, o Amu Nowruz é mais conhecido como a figura de um ancião respeitável, de barbas brancas, túnica verde e cajado na mão representando, com a sua longevidade, a presença histórica do “Nowruz”, cuja tradição passa de geração em geração. Por outro lado, o “Haji Firuz” passa pedindo “Eidi” (presentes em dinheiro), enquanto o Amu Nowruz é aquele que presenteia, atende os pedidos das crianças e assegura que elas tenham um ano novo repleto de saúde e felicidade. Embora os dois cheguem sempre juntos, parece que o “Haji Firuz” passou a ser um ícone mais comercial da data, já que a imagem de Amu Nowruz quase sempre fica num plano mais tradicionalista.
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Poucas semanas antes do “Nowruz”, as famílias têm por costume fazer verdadeiros rituais de limpeza nas suas casas, lavando tudo, pintando as paredes, livrando-se de utensílios velhos, plantando sementes, normalmente de trigo ou cevada (“sabzi”) num vaso, decorando as plantas com uma fita vermelha. Flores como a tulipa, o narciso e jacinto também fazem parte da decoração, assim como um pote de vidro com um peixe dourado. Com o início da Primavera, toda a natureza se renova. Assim que o Ano Novo começa todos procuram renovar as suas vidas, tanto interiormente como exteriormente. Inimizades, por exemplo, devem ser esquecidas e as boas relações tornadas mais estimadas, profundas e significativas.
Outro ritual de renovação que acontece na última quarta-feira antes do dia de Ano Novo é a “Chahar shabe Suri”, ou “quarta-feira vermelha”, costume especial de, à meia-noite, se acender uma pequena fogueira e saltar sobre ela, entoando refrões característicos para afugentar a maldade, a doença, os ódios e as inimizades no fogo, agradecer pelas bênçãos do ano anterior e pedir por um ano novo de saúde e felicidade. Este acto simboliza a vitória da luz contra as trevas (do bem contra o mal) e remonta a um ritual celebrado pelos persas há mais de 2.500 anos, oriundo dos ancestrais zoroastrianos. 
Outros rituais curiosos desta quarta-feira, regra geral celebrados entre os iranianos, é o “Kūze Shekastan”, que significa “quebrar o vaso de barro”, destruindo simbolicamente todo o infortúnio, o “Gereh-goshāi”, que consiste em dar um nó numa das pontas de um lenço ou de uma toalha de mesa e pedir à primeira pessoa que se encontre para o desfazer, a fim de anular tudo aquilo que “amarre a vida”, e o “qashogh-zani” (“bater com a colher”) que simboliza afastar a má sorte através do barulho de panelas ou de colheres a bater.
Uma das tradições mais importantes do Ano Novo é o ritual chamado “Sofreh-Haft-Sin” (cujo significado pode ser traduzido como “Mesa dos Sete S”). Alguns dias antes do Ano Novo, a mesa da casa é coberta com uma toalha especial e sobre esta são colocados sete artigos, cada um iniciado com a letra “Sin”, ou ‘S’ do alfabeto persa. O número sete sempre foi considerado um número com uma forte carga cabalística, desde os tempos mais antigos, e os sete itens representam os sete anjos anunciadores da vida: renascimento, saúde, felicidade, prosperidade, alegria, paciência e beleza.
A mesa tradicional do “Haft-Sin” é composta por “Sabzeh” ou brotos, geralmente de trigo ou de lentilha representando o “renascimento”; o “Samanu”, um pudim cremoso feito com brotos de trigo comuns que ganham uma “nova vida” sendo transformados em doce; “Sib”, que significa maçã e representa a saúde e a beleza; “Senjed”, fruta, doce e seca da árvore de Lótus, que representa o “amor”; “Sir”, alho em persa (representa a “cura das doenças”); “Somaq”, os gomos do sumagre, representam a cor do nascer do sol e simbolizam “a vitória do bem contra o mal” e o “Serkeh” ou vinagre, símbolo do “amadurecimento e da paciência”. Além destes elementos, algumas famílias incluem à mesa outros objectos como velas, representando a luz e o calor com a chegada da Primavera e o livro sagrado (Tora, Bíblia ou Alcorão), de acordo com a religião da família. Após consumirem os artigos simbólicos comestíveis, estes são substituídos por outros objectos (não comestíveis) que também começam com a letra ‘S’ que podem ser “sekke” (moedas), “sonbol” (jacinto), “sepand” (arruda), “sepestan” e “samovar”. Além destes, poderão ser ainda acrescentados outros artigos como peixinhos dourados, um espelho, um relógio, uma flor de laranjeira (a flutuar numa tigela de água), ovos coloridos, romãs, castanhas e passas (entre elas a “Ajīl-e Moshkel-Goshā” ou “frutos que resolvem problemas”).
Finalmente, ao 13º dia (“Sizdah Bedar”), e para encerrar as festividades de “Nowruz”, marcando também o fim das férias escolares para as crianças, as famílias saem e fazem passeios ao ar livre, jogos e piqueniques nos parques ou nas montanhas, em harmonia com uma nova estação que se inicia. A partir do 14 º dia, a vida volta à rotina normal. “Sizdah-Bedar”, pode ser traduzido como “evitar o dia 13”, ou “dia 13 fora de casa”. “Sizdah” significa 13, que muitos acreditam ser um número de azar. O conceito de evitar o número treze simboliza o desejo de afastar todo o mal no ano novo. Acredita-se que “Sizdah Bedar” seja também um dia especial para pedir a bênção da chuva. Na Pérsia antiga, cada dia tinha o seu próprio nome e pertencia a um anjo diferente. O dia 13 de Farvardin pertencia ao Anjo da Chuva, que é retratado sob a efígie de um cavalo, sendo que, para os amantes dos jogos de sorte, o “Sizdah-Bedar” seja igualmente um dia propício para os jogos competitivos em especial aqueles que envolvem corridas de cavalos. Neste dia, as raparigas e os rapazes têm por costume dar um nó num pé de relva e fazer um pedido para que possam encontrar um bom marido ou esposa. Quando o nó se abrir, acredita-se que a sua sorte será liberta e os seus desejos se tornarão realidade. Os recém-casados também fazem este ritual na intenção de terem um bebé, uma casa ou outros desejos que ambicionem. O atar da relva representa a união de um homem e de uma mulher. Esta é a canção que as raparigas cantam enquanto fazem o nó: “Sizdah-Bedar sal-e deegar khooneh shoohar, bacheh baghal” que, em persa, se poderá traduzir como “No próximo Sizdah-Bedar, na casa do meu marido, a segurar um bebé”. Outro ritual interessante realizado no final do dia de piquenique é o de deitar fora o “sabzi” utilizado na mesa do “Haft-Sin”. Acredita-se que o “sabzi” tenha recolhido todas as dores, doenças e males no caminho da família durante todo o ano que se segue.
Nowruz Mubarak!

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