sexta-feira, 30 de março de 2018

Aprender a escrever a escrita da vida

Adaptado da lenda oriental “Aprende a Escrever na Areia” (em árabe “Taallam au takub ala arram”).

Foto do autor
Dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas longas estradas que circundam as melancólicas montanhas da Pérsia. Eram nobres e ricos e faziam-se acompanhar por servos, ajudantes e caravaneiros. Chegaram, certa manhã, bem cedo, às margens de um grande rio, barrento e impetuoso. Era preciso transpor a corrente ameaçadora.
Ao saltar, porém, de uma pedra, Mussa foi infeliz e escorregando-lhe um pé, caiu no torvelinho espumante das águas revoltas. Teria ali perecido, arrastado para o abismo, não fosse Nagib. Este, sem a menor hesitação, atirou-se à correnteza e, nadando com todas as forças, salvou de morte certa o seu companheiro de jornada.
Mussa chamou o mais hábil dos seus servos e pediu-lhe que gravasse na face lisa de uma grande pedra, que ali se erguia, esta legenda admirável: “Viajante, neste lugar, durante uma jornada, com risco da própria vida, Nagib salvou, heroicamente, o seu amigo Mussa”. Feito isso, prosseguiram, com as suas caravanas pelos intérminos caminhos da sua rota.
Alguns meses depois, em viagem de regresso, encontraram-se novamente os dois amigos naquele mesmo local perigoso e trágico, forçados a atravessar o mesmo rio. Fatigados, resolveram repousar à sombra acolhedora do lajedo que ostentava a honrosa inscrição. Sentados, na areia clara, puseram-se a conversar. Eis que, por um motivo fútil, surge, de repente, grave desavença entre os dois companheiros. Discordaram. Discutiram. Nagib, exaltado, num ímpeto de cólera, esbofeteou o amigo.
Mussa não revidou a ofensa. Ergueu-se e, tomando tranquilo o seu bastão, escreveu na areia, ao pé do negro rochedo: “Viajante, neste lugar, durante uma jornada, por motivo fútil, Nagib injuriou, gravemente, o seu amigo Mussa”.
Surpreendido com o estranho procedimento, um dos ajudantes de Mussa observou respeitoso: “Senhor, da primeira vez, para exaltar a abnegação de Nagib, mandastes gravar, para sempre, na pedra o feito heróico. E agora, que ele acaba de ofender-vos tão gravemente, vós vos limitais a escrever na areia incerta o acto de covardia. A primeira legenda, ó meu mestre, ficará para sempre. Todos os que transitarem por este sítio dela terão notícia. Esta outra, porém, riscada no tapete de areia, antes do cair da tarde terá desaparecido como um traço de espuma entre as ondas buliçosas do mar...
“A razão é simples”, respondeu Mussa. “É que o benefício que recebi de Nagib permanecerá, para sempre, em meu coração. Mas a injúria, escrevo-a na areia, como um voto, para que, quanto mais depressa daqui se apagar e desaparecer, mais depressa desapareça e se apague da minha lembrança…”
Eis a sublime verdade, meus amigos. Aprendamos a escrever, na areia, os desencantos, as injustiças, as ingratidões, os mal-entendidos e as ironias que nos magoarem pela estrada da vida. E aprendamos, sobretudo, a gravar, na pedra, as bênçãos, as alegrias, os favores que recebermos, os benefícios que nos fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvirmos. Assim seremos todos bem-afortunados. Sejam felizes. Sempre em Amor.

1 comentário:

  1. Uma história que faz parte das muitas histórias que podemos considerar como que uma lição de vida...de facto, mal do ser humano que se paute por uma postura correcta, na estrada da vida, dando-se sincera e honradamente na amizade e no amor que na eventualidade de ser incompreendido ou injustiçado, ante o desencanto, a injustiça e ingratidão se deixe envolver pela amargura ou essa mesma desilusão…Há sim, que dar valor tatuando na alma e gravando na pedra tudo de bom que se deu e recebeu, por isso AjR faço minhas as tuas palavras por serem verdadeiramente sentidas por mim: "Aprendamos a escrever, na areia, os desencantos, as injustiças, as ingratidões, os mal-entendidos e as ironias que nos magoarem pela estrada da vida. E aprendamos, sobretudo, a gravar, na pedra, as bênçãos, as alegrias, os favores que recebermos, os benefícios que nos fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvirmos. Assim seremos todos bem-afortunados."
    E que o vento esteja sempre a nosso favor, levando os nossos pesares, dissolvendo-os pelos ares, e deixando no nosso Ser, a doçura, a leveza, o amor…
    Sê feliz. Sempre em Amor.

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