sexta-feira, 30 de março de 2018

Aprender a escrever a escrita da vida

Adaptado da lenda oriental “Aprende a Escrever na Areia” (em árabe “Taallam au takub ala arram”).

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Dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas longas estradas que circundam as melancólicas montanhas da Pérsia. Eram nobres e ricos e faziam-se acompanhar por servos, ajudantes e caravaneiros. Chegaram, certa manhã, bem cedo, às margens de um grande rio, barrento e impetuoso. Era preciso transpor a corrente ameaçadora.
Ao saltar, porém, de uma pedra, Mussa foi infeliz e escorregando-lhe um pé, caiu no torvelinho espumante das águas revoltas. Teria ali perecido, arrastado para o abismo, não fosse Nagib. Este, sem a menor hesitação, atirou-se à correnteza e, nadando com todas as forças, salvou de morte certa o seu companheiro de jornada.
Mussa chamou o mais hábil dos seus servos e pediu-lhe que gravasse na face lisa de uma grande pedra, que ali se erguia, esta legenda admirável: “Viajante, neste lugar, durante uma jornada, com risco da própria vida, Nagib salvou, heroicamente, o seu amigo Mussa”. Feito isso, prosseguiram, com as suas caravanas pelos intérminos caminhos da sua rota.
Alguns meses depois, em viagem de regresso, encontraram-se novamente os dois amigos naquele mesmo local perigoso e trágico, forçados a atravessar o mesmo rio. Fatigados, resolveram repousar à sombra acolhedora do lajedo que ostentava a honrosa inscrição. Sentados, na areia clara, puseram-se a conversar. Eis que, por um motivo fútil, surge, de repente, grave desavença entre os dois companheiros. Discordaram. Discutiram. Nagib, exaltado, num ímpeto de cólera, esbofeteou o amigo.
Mussa não revidou a ofensa. Ergueu-se e, tomando tranquilo o seu bastão, escreveu na areia, ao pé do negro rochedo: “Viajante, neste lugar, durante uma jornada, por motivo fútil, Nagib injuriou, gravemente, o seu amigo Mussa”.
Surpreendido com o estranho procedimento, um dos ajudantes de Mussa observou respeitoso: “Senhor, da primeira vez, para exaltar a abnegação de Nagib, mandastes gravar, para sempre, na pedra o feito heróico. E agora, que ele acaba de ofender-vos tão gravemente, vós vos limitais a escrever na areia incerta o acto de covardia. A primeira legenda, ó meu mestre, ficará para sempre. Todos os que transitarem por este sítio dela terão notícia. Esta outra, porém, riscada no tapete de areia, antes do cair da tarde terá desaparecido como um traço de espuma entre as ondas buliçosas do mar...
“A razão é simples”, respondeu Mussa. “É que o benefício que recebi de Nagib permanecerá, para sempre, em meu coração. Mas a injúria, escrevo-a na areia, como um voto, para que, quanto mais depressa daqui se apagar e desaparecer, mais depressa desapareça e se apague da minha lembrança…”
Eis a sublime verdade, meus amigos. Aprendamos a escrever, na areia, os desencantos, as injustiças, as ingratidões, os mal-entendidos e as ironias que nos magoarem pela estrada da vida. E aprendamos, sobretudo, a gravar, na pedra, as bênçãos, as alegrias, os favores que recebermos, os benefícios que nos fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvirmos. Assim seremos todos bem-afortunados. Sejam felizes. Sempre em Amor.

segunda-feira, 26 de março de 2018

O Shaykh Generoso

Em tempo de Páscoa, um conto de tradição oral com ensinamento e sabedoria de sempre, transversal a todo o Ser Humano...

Quando o shaykh Abdullah atravessava as ruas tortuosas de Marraquexe, os homens paravam, respeitosos, a cada esquina, para saudá-lo: “Salam! Paz ao mais generoso dos shuiuk! Allah badiq yah sidi! Deus vos conduza, senhor! Seja o paraíso a morada de vossos pais!" 
Ao ouvir aquelas expressões tão eloquentes, que traduziam o sentimento de gratidão que vivia na alma do povo, uma dúvida insinuava-se no meu espírito: Abdullah seria, realmente, merecedor daquelas homenagens? Não haveria exageros em sublinhar-se o seu nome com tamanho colorido da fama?
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Um dia, afinal, levou-me o destino a assistir a uma cena que desmontou esta dúvida. Achava-me eu no pátio da mesquita de Iazid, na companhia de Abdullah e de um plumitivo amigo de Casablanca. Conversávamos, descontraídos, quando se aproximou de nós um ancião andrajoso e trôpego que, com voz arrastada e humilde, implorou “uma esmola pelo amor de Deus!”. Abdullah tirou imediatamente da bolsa uma rica moeda de ouro e depositou-a nas mãos trémulas do pobre velho. Ao receber a preciosa coroa, o mendicante ergueu os braços para o céu e exclamou: “Yah abu’l jazl! Ó pai da excelência! Seja Allah, Ar-Rahman (“o Invisível”, um dos “Nomes Belos de Deus”, na religião islâmica), o vosso guia e amparo e que a sombra da ventura seja a vossa própria sombra!”
Ninguém poderá avaliar o espanto que me invadiu quando vi o shaykh dirigir-se ao mendigo, tirar-lhe a peça de ouro que momentos antes lhe dera e, em troca, meter-lhe nas mãos um dinar de prata. “Espera, meu velho. Enganei-me ao tirar da bolsa o dinheiro.” E, apontando para o dinar de prata, soltou esta frase: “É esta a moeda que pretendia oferecer-te!”
O pedinte, depois de revirar entre os dedos a rutilante moeda, de valor bem menor que a primeira, fez ouvir novamente os protestos da sua gratidão:
“Yah abu’l jul! Ó pai da bondade! Que Allah, Ar-Rahim (“o Misericordioso”), abençoe vossos filhos e os filhos de vossos filhos! Que a alegria viva constantemente em vosso lar!”
Maior ainda foi a minha surpresa quando vi o pecunioso Abdullah, alegando novo equívoco, aproximar-se outra vez do pobre, arrebatar-lhe das mãos o dinar de prata e dar-lhe, em troca, com maior descaso, uma ouquia, isto é, uma moeda de bronze de ínfimo valor. “Sinto contrariar-te”, disse o rico shaykh ao esfrangalhado mendigo, “mas no momento só posso dispor desta ouquia.” Engoli em seco, constrangido com aquela situação, incomodado com o modo como aquele arrogante homem, de vida aparatosa e brilhante, tripudiava sobre a miséria alheia.
Sem demonstrar o mais leve ressentimento de contrariedade, como se o seu coração já estivesse impermeável a todas as afrontas e indignidades da vida, o mendigo ajoelhou-se aos pés do potentado shaykh e assim falou, com um pasmo crédulo na face: “Pelo manto do nosso glorioso Profeta! Yah abu’l kamaul! Ó pai da perfeição! Que a generosidade de Allah, o Sapientíssimo, caia, para sempre, sobre os vossos ombros e que as vossas mãos dadivosas possam, por muitos e muitos anos, auxiliar os infelizes e desamparados! Seja a felicidade a luz de vossos olhos!”
Aquelas palavras, impressionantes pela sinceridade com que eram ditas, ecoavam mordentes no meu coração. O meu primeiro ímpeto foi de me afastar imediatamente dali. O literato, de braços cruzados sobre o peito, permanecia ridente, impassível, como se estivesse assistindo ao caso mais trivial do dia. Abdullah, pousando a mão no ombro do mendigo, aconselhou-o com irritante mansidão: “Leva esta ouquia à casa de Hassan, o da makhbazat (padaria), compra um pão e diz-lhe que vais da minha parte!”
No dia seguinte, encontrava-me eu no suq de El-Quemis, à conversa com Fauzi Samir, um negociante de Damasco, quando avistei Abdullah, que passava a poucos passos de nós. O sírio, que se encontrava ao meu lado, dirigiu um afectuoso “salam” ao shaykh: “Yah abu-‘l nuzzaur! Ó pai da riqueza! Queira Allah, Al-A’ziz (“o Poderoso”), fazer-te cem vezes mais rico e mil vezes mais feliz!”
E notando que eu ficara impassível, silencioso, perguntou-me se, por acaso, eu não tinha a incomparável ventura de conhecer sidi Abdullah, o mais generoso dos "shuiuk". “Conheço-o de sobra”, respondi com sarcasmo. “Esse ricaço pode iludir e ilaquear toda a gente, menos a mim.”
E narrei-lhe, em termos acerbos, o episódio testemunhado na véspera.
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Decidido a esclarecer a verdade, respondeu-me o mercador damasceno: “Informaram-me ontem desse caso que tanto espanto causou ao teu espírito. A explicação da estranha atitude do shaykh é muito simples: quando sidi Abdullah avistou o carenciado ancião, receou tratar-se de um falso mendigo e quis experimentá-lo. Que fez? Deu-lhe uma moeda de ouro e, logo depois, alegando ter-se enganado, trocou a moeda por outra de prata, que valia, talvez, a quinta parte da primeira. Se o mendigo tivesse palavras de revolta, revelando alma sórdida e propensa à ingratidão, seria mandado em paz com a libra de ouro e com o dinar de prata. Tal, entretanto, não sucedeu. Vendo embora diminuída a esmola, ele não deixou de exaltar novamente a gratidão que sentia pelo generoso benfeitor. Que fez o shaykh? Procurou certificar-se mais uma vez da grandeza d’alma do infeliz. Pegou na moeda de prata que já lhe tinha dado e substituiu-a por uma de bronze. Se se tratasse de um tipo vulgar, com o espírito caldeado pela inveja e pelo despeito, decerto o bondoso shaykh teria sido injuriado por ter imposto aquela segunda troca. O pobre, no entanto, revelando possuir sentimentos nobres de paciência e resignação, mostrou-se conformado com a sorte, não se ofendeu com o pouco valor da esmola, nem se irritou com a perda dos dois outros valores.”
“E que ganhou, afinal, o mendigo?”, indaguei, arrastado pela curiosidade que o caso em mim despertara.
“Aquela ouquia de bronze”, resumiu o mercador, “estava marcada e levando-a, como o shaykh recomendara, ao bom amigo Hassan, da padaria, o mendigo foi incluído na relação dos pobres de Fátima, a sociedade mantida pelo dadivoso Abdullah. As pessoas socorridas por Fátima têm pão e agasalho para o resto dos seus dias. Eis aí a recompensa que alcançou o velho da mesquita. O maior auxílio que poderia desejar!”
Nesse momento avistei o shaykh, de pé, junto a uma das portas do suq. Na ânsia de reparar o erro do julgamento que tivera a leviandade de proferir contra ele, ergui o braço e exclamei bem alto: “Allah al-uahid badiq yah sidi! Deus, o Único, vos conduza, senhor!”
Verdadeiramente imperscrutável esta nossa natureza humana que, por vezes, afreimada por quaisquer mal-entendidos ou compelida por sentimentos menos dignos, nos desencaminha ao encontro de juízos de valor deturpados sobre pessoas, acções ou factos, baqueando-nos na tentação do prognóstico fácil e precipitado...

segunda-feira, 19 de março de 2018

Nowrūz: Ano Novo Persa


Nowruz, or Navroz, is the Persian New Year and the traditional festival marking the beginning of spring. The day is believed to promote peace, solidarity, reconciliation and neighbourliness, and is designed to be filled with good food, new clothes and quality time with loved ones.
The festival is observed in Middle Eastern, and Central and South Asian communities. The traditions associated with it date back around 3,500 years ago. Navroz was officially registered on the UNESCO List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity in 2009 and is celebrated on March 21, the day of the equinox.

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Iniciam-se amanhã as festividades do “Nowruz”, também transliterado como “Nowrūz”, “Noruz”, “Nooroz”, “Noh Ruz” ou “Navroz”, “Novo Dia”, data que equivale ao Equinócio da Primavera. Ano 1397. Esta data é calculada, em cada ano, no momento em que o Sol cruza o equador celeste e a noite e o dia são iguais.

O “Nowruz” está associado a várias tradições regionais, oriundas da religião zoroastriana. Os ritos que acompanham a festa incluem canções, danças, decoração da mesa simbólica (“haft-sin”), banquetes e distribuição de presentes entre famílias, amigos e vizinhos.
A Organização das Nações Unidas reconheceu, em 2010, o Dia Internacional do “Nowruz”, descrevendo-o como uma festa de primavera de origem persa que é celebrado há mais de 3.000 anos. A palavra “Nowruz”, efectivamente de origem persa, é formada pelas palavras “Now” que significa “novo” e “ruz”, “dia” ou “luz do dia”.
A saudação usual por esta ocasião é “Nowruz mubarak” (Feliz Ano Novo). 
O termo “Nowruz” aparece pela primeira vez em documentos do século II a.C., mas há razões para acreditar que a celebração seja bem mais antiga e que provavelmente seria já um dia importante durante a dinastia Aqueménida (cerca de 648 a.C. - 330 a.C.). É possível que o célebre complexo palaciano de Persépolis (ou pelo menos algumas das suas edificações, como a Apadana e o “Palácio das Cem Colunas”) tenha sido construído para ser utilizado nas celebrações do “Nowruz”.
As mais antigas referências a esta festividade remontam à época parto-arsácida (247 a.C. - 224 d.C.), existindo, outrossim, referências específicas à celebração, durante o reino de Vologases (51-78). Detalhes substanciais sobre a celebração do “Nowruz” aparecem desde o reinado de Artaxes I, fundador da dinastia Sassânida (224 - 650). Sob os reis sassânidas, o “Nowruz” era considerado como o dia mais importante do ano. A maior parte das tradições reais de “Nowruz” – como as audiências públicas do rei, os presentes e o perdão aos prisioneiros – foi estabelecida durante o período sassânida e chegou até à nossa época. Assim como a tradição do “Sadeh” (celebrado no meio do inverno), o“Nowruz” sobreviveu na Pérsia após a introdução do Islamismo, em 650. Há indicações de que os quatro grandes califas do Islão (Abu Bakr, ‘Umar Ibn Al-Khattab, Uthman Ibn Affan, ‘Ali Ibn Abi Talib) terão presidido a festividades do “Nowruz”, e que o dia seria feriado no período Abássida. Após a queda do califado e a restauração das dinastias persas, o “Nowruz” foi elevado a um nível ainda mais importante. 
Uma das personagens do imaginário folclórico associado ao “Nowruz” é Naneh Sarma, uma sábia anciã de cabelos brancos como a neve, costas arqueadas pela idade e de face enrugada, que terá vivido numa cabana no topo da Montanha Alborz. Também conhecida por “Avó Geada” ou “Senhora do Gelo”, representa o Inverno. Esta figura é a representante feminina do trio de personagens associados ao Ano Novo que inclui o Khawja Piruz e o Amu Nowruz, aquele que traz as flores do início da Primavera e presentes para as crianças, o que nos faz pensar que provavelmente possa ser, por analogia, um primo distante do Pai Natal ocidental.
Simbolizando a Primavera, Nowruz, o filho de Naneh Sarma, seria um jovem alto e belo e de tal forma gentil e amável com todas as criaturas que, por onde caminhava, concedia a vida, clima agradável, saúde e boa sorte a todos.
Relativamente ao Khawja Piruz, conta a tradição que, ainda hoje, em países como o Irão, durante a celebração do “Nowruz”, um bando de simpáticos trovadores conhecidos como “Haji Firuz”, com os rostos pintados de negro, vestidos com roupas coloridas de cetim e chapéus em forma de cone, provavelmente um resquício dos antigos guardiães do fogo zoroastrianos (acredita-se que a cor negra a cobrir o rosto representará o escuro das cinzas) desfilam pelas ruas, cantando e dançando com pandeiros, tambores e trombetas espalhando alegria e trazendo a todos bons votos para o novo ano. O nome destes personagens advirá de Khawja Piruz (“Khawja” significa “Mestre” e “Piruz” “vitória”, em persa). Alguns acreditam que a personagem de “Haji Firuz” costumava cantar nas ruas anunciando a todas as pessoas que a Primavera tinha chegado. Em troca, as pessoas davam-lhe presentes ou dinheiro por ter trazido boas notícias. Outros acreditam que a personagem de “Haji Firuz” estará relacionada com a criação de uma atmosfera feliz nas famílias. O Dia de Ano Novo deve começar com felicidade e alegria, para que durante o resto do ano as famílias continuem felizes.
Enquanto o “Haji Firuz” é um jovem e animado palhacinho que toca tamborim e dança anunciando a festa do Ano Novo, o Amu Nowruz é mais conhecido como a figura de um ancião respeitável, de barbas brancas, túnica verde e cajado na mão representando, com a sua longevidade, a presença histórica do “Nowruz”, cuja tradição passa de geração em geração. Por outro lado, o “Haji Firuz” passa pedindo “Eidi” (presentes em dinheiro), enquanto o Amu Nowruz é aquele que presenteia, atende os pedidos das crianças e assegura que elas tenham um ano novo repleto de saúde e felicidade. Embora os dois cheguem sempre juntos, parece que o “Haji Firuz” passou a ser um ícone mais comercial da data, já que a imagem de Amu Nowruz quase sempre fica num plano mais tradicionalista.
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Poucas semanas antes do “Nowruz”, as famílias têm por costume fazer verdadeiros rituais de limpeza nas suas casas, lavando tudo, pintando as paredes, livrando-se de utensílios velhos, plantando sementes, normalmente de trigo ou cevada (“sabzi”) num vaso, decorando as plantas com uma fita vermelha. Flores como a tulipa, o narciso e jacinto também fazem parte da decoração, assim como um pote de vidro com um peixe dourado. Com o início da Primavera, toda a natureza se renova. Assim que o Ano Novo começa todos procuram renovar as suas vidas, tanto interiormente como exteriormente. Inimizades, por exemplo, devem ser esquecidas e as boas relações tornadas mais estimadas, profundas e significativas.
Outro ritual de renovação que acontece na última quarta-feira antes do dia de Ano Novo é a “Chahar shabe Suri”, ou “quarta-feira vermelha”, costume especial de, à meia-noite, se acender uma pequena fogueira e saltar sobre ela, entoando refrões característicos para afugentar a maldade, a doença, os ódios e as inimizades no fogo, agradecer pelas bênçãos do ano anterior e pedir por um ano novo de saúde e felicidade. Este acto simboliza a vitória da luz contra as trevas (do bem contra o mal) e remonta a um ritual celebrado pelos persas há mais de 2.500 anos, oriundo dos ancestrais zoroastrianos. 
Outros rituais curiosos desta quarta-feira, regra geral celebrados entre os iranianos, é o “Kūze Shekastan”, que significa “quebrar o vaso de barro”, destruindo simbolicamente todo o infortúnio, o “Gereh-goshāi”, que consiste em dar um nó numa das pontas de um lenço ou de uma toalha de mesa e pedir à primeira pessoa que se encontre para o desfazer, a fim de anular tudo aquilo que “amarre a vida”, e o “qashogh-zani” (“bater com a colher”) que simboliza afastar a má sorte através do barulho de panelas ou de colheres a bater.
Uma das tradições mais importantes do Ano Novo é o ritual chamado “Sofreh-Haft-Sin” (cujo significado pode ser traduzido como “Mesa dos Sete S”). Alguns dias antes do Ano Novo, a mesa da casa é coberta com uma toalha especial e sobre esta são colocados sete artigos, cada um iniciado com a letra “Sin”, ou ‘S’ do alfabeto persa. O número sete sempre foi considerado um número com uma forte carga cabalística, desde os tempos mais antigos, e os sete itens representam os sete anjos anunciadores da vida: renascimento, saúde, felicidade, prosperidade, alegria, paciência e beleza.
A mesa tradicional do “Haft-Sin” é composta por “Sabzeh” ou brotos, geralmente de trigo ou de lentilha representando o “renascimento”; o “Samanu”, um pudim cremoso feito com brotos de trigo comuns que ganham uma “nova vida” sendo transformados em doce; “Sib”, que significa maçã e representa a saúde e a beleza; “Senjed”, fruta, doce e seca da árvore de Lótus, que representa o “amor”; “Sir”, alho em persa (representa a “cura das doenças”); “Somaq”, os gomos do sumagre, representam a cor do nascer do sol e simbolizam “a vitória do bem contra o mal” e o “Serkeh” ou vinagre, símbolo do “amadurecimento e da paciência”. Além destes elementos, algumas famílias incluem à mesa outros objectos como velas, representando a luz e o calor com a chegada da Primavera e o livro sagrado (Tora, Bíblia ou Alcorão), de acordo com a religião da família. Após consumirem os artigos simbólicos comestíveis, estes são substituídos por outros objectos (não comestíveis) que também começam com a letra ‘S’ que podem ser “sekke” (moedas), “sonbol” (jacinto), “sepand” (arruda), “sepestan” e “samovar”. Além destes, poderão ser ainda acrescentados outros artigos como peixinhos dourados, um espelho, um relógio, uma flor de laranjeira (a flutuar numa tigela de água), ovos coloridos, romãs, castanhas e passas (entre elas a “Ajīl-e Moshkel-Goshā” ou “frutos que resolvem problemas”).
Finalmente, ao 13º dia (“Sizdah Bedar”), e para encerrar as festividades de “Nowruz”, marcando também o fim das férias escolares para as crianças, as famílias saem e fazem passeios ao ar livre, jogos e piqueniques nos parques ou nas montanhas, em harmonia com uma nova estação que se inicia. A partir do 14 º dia, a vida volta à rotina normal. “Sizdah-Bedar”, pode ser traduzido como “evitar o dia 13”, ou “dia 13 fora de casa”. “Sizdah” significa 13, que muitos acreditam ser um número de azar. O conceito de evitar o número treze simboliza o desejo de afastar todo o mal no ano novo. Acredita-se que “Sizdah Bedar” seja também um dia especial para pedir a bênção da chuva. Na Pérsia antiga, cada dia tinha o seu próprio nome e pertencia a um anjo diferente. O dia 13 de Farvardin pertencia ao Anjo da Chuva, que é retratado sob a efígie de um cavalo, sendo que, para os amantes dos jogos de sorte, o “Sizdah-Bedar” seja igualmente um dia propício para os jogos competitivos em especial aqueles que envolvem corridas de cavalos. Neste dia, as raparigas e os rapazes têm por costume dar um nó num pé de relva e fazer um pedido para que possam encontrar um bom marido ou esposa. Quando o nó se abrir, acredita-se que a sua sorte será liberta e os seus desejos se tornarão realidade. Os recém-casados também fazem este ritual na intenção de terem um bebé, uma casa ou outros desejos que ambicionem. O atar da relva representa a união de um homem e de uma mulher. Esta é a canção que as raparigas cantam enquanto fazem o nó: “Sizdah-Bedar sal-e deegar khooneh shoohar, bacheh baghal” que, em persa, se poderá traduzir como “No próximo Sizdah-Bedar, na casa do meu marido, a segurar um bebé”. Outro ritual interessante realizado no final do dia de piquenique é o de deitar fora o “sabzi” utilizado na mesa do “Haft-Sin”. Acredita-se que o “sabzi” tenha recolhido todas as dores, doenças e males no caminho da família durante todo o ano que se segue.
Nowruz Mubarak!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um chá do deserto...

“Aperto as sapatilhas e de mochila às costas avanço na estrada. A estrada que me leva aos sonhos aos que ainda não vivi e aprisiono no meu peito.
Aperto as sapatilhas brancas, delicadas para a areia que me fere e me acorda na caminhada.
Aperto as sapatilhas companheiras de contos e estórias, as minhas que se soltam devagarinho, de mim.
Aperto as sapatilhas para me sentir segura e caminhar no trilho que tracei, para mim!
Sigo,
Sigo em frente olhando o horizonte. Com a brisa, encho o peito de emoções, as que conheço e mim. Os meus olhos abraçam ao sol que me aquece e me purifica de todas as formas de repugnância. 
Sigo as linhas tortas do trilho que as flores me deixaram e com o seu aroma mastigo a angústia dos anteriores passos, dados, na minha vida.
Sinto ainda a leveza na pele e a falta das rugas na alma o que me endurece nas decisões que ainda terei que tomar.
Sinto a força do rio que habita em mim quando o meu coração pousa e de mansinho eu o deixo ali sentado. 
Talvez por medo
Talvez por receio de que fale demasiado
Talvez não queira pensar nisso e finja que está somente cansado.
Aperto as sapatilhas e fujo de mim com toda a força que tenho e me deixa caminhar para ti.”

Poema da autoria da escritora e querida amiga Susana Campos, inspirado numa primeira leitura deste blogue.
Natural de Coimbra, Susana Campos é autora, entre outras, das obras “O Menino que Tinha Medo do Escuro” (com adaptação para língua gestual portuguesa), edição de 2014, “O Menino que Sonhava com uma casa de Chocolate” (2017) e “O menino que tinha um buraco no coração” (2018).
A escrita sempre se destacou na vida da Susana, ocupando um lugar crucial na sua própria realização pessoal e na forma como ela comunica através da arte que abraça, sente e partilha com paixão, transportando sentimentos muito seus.
Parabéns, Susana, e obrigado pelo lindo contributo, pela inspiração e por te juntares nesta caminhada. Bem-vinda. Ahlan ua Sahlan.
Obrigado Susana Campos, Artemisa Silva, Alex Terra, António Evaristo, Armando Rodrigues, Ernesto Martinho, João Baptista, João Barradas, Victor Frederico, Paulo Pedrogam e José Manuel Rosendo, por me acompanharem nesta viagem. Bem vindos. Bem-hajam.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O Tesouro de 'Alima


“Suponde que um homem conhece tudo o que há nos livros de Aristóteles, mas não faz coisa alguma das que nele há, enquanto outro homem as põe em prática sem possuir a ciência. Será mais excelente o ignorante que pratica a virtude que o outro que a não pratica ainda que a conheça.” (Abu Nasr Al-Farabi).

Existiu, outrora, na Babilónia, a famosa cidade dos «Jardins Suspensos», um pobre e modesto alfaiate chamado Ziriak, homem humilde e trabalhador que, pelas suas boas qualidades e dotes de coração, granjeara muitas simpatias no bairro em que morava.
Ziriak passava o dia inteiro, da manhã à noite, a cortar e a coser as roupas dos seus numerosos fregueses e, embora paupérrimo, não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo, senhor de muitos palácios e de grandes tesouros. Ouvira contar, em palestras com estrangeiros vindos do Egipto, da Síria, da Grécia e da Fenícia, histórias prodigiosas de aventureiros que haviam descoberto, por acaso, no interior de cavernas, baús de ouro, cofres crivados de brilhantes, luras sórdidas que guardavam caixas pesadíssimas a transbordar de pérolas, mimoso fruto da rapina de bárbaros cartagineses.
E não poderia ele, à semelhança desses aventureiros felizes, descobrir um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, de um momento para o outro, mais rico do que o poderoso rei da sua cidade? Assim meditava o bondoso Ziriak, divagando por tão longínquas riquezas, quando lhe bateu à porta de casa um mercador da Fenícia, que vendia tapetes, caixas de ébano, bolas coloridas, imagens, pedras e uma infinidade de outros objectos extravagantes tão apreciados pelos babilónios.
Por mera curiosidade, começou Ziriak a examinar as bugigangas que o vendedor lhe oferecia, quando descobriu, entre elas, uma espécie de almanaque. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o traficante. E custava apenas três dinares. Era muito dinheiro para o pobre alfaiate mas, apesar disso, para possuir objecto tão curioso e raro, Ziriak concordou em pagar essa quantia. Tratou, sem demora, de examinar cuidadosamente a raridade que havia adquirido. Qual não foi a sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, uma legenda escrita em complicados caracteres caldaicos: «o tesouro de ‘Alima, enterrado pelo génio do mesmo nome para lá do mar de Motaleh Kardan, entre as montanhas do ‘Amal, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha a encontrá-lo».
Yallah! Aquele livro maravilhoso, cheio de mistério, ensinava, com certeza, onde se encontrava algum esplendor fabuloso, o tesouro de ‘Alima! Mas que tesouro seria esse?! E onde ficaria o mar de Motaleh Kardan?! E ‘Amal! Que montanhas seriam essas que encerravam todo o ouro fabuloso de um génio?!
E o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, a ver se descobria, custasse o que custasse, o segredo de ‘Alima, para se apoderar do tesouro imenso, que o capricho do seu possuidor fizera enterrar nalguma gruta perdida entre as montanhas.
As primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos. Ziriak foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialectos persas, o complicado idioma dos judeus. Ao fim de dois anos, deixava Ziriak a antiga profissão de alfaiate, e passava a ser o intérprete do rei, pois na cidade não havia quem soubesse tantos idiomas estrangeiros. O cargo de intérprete do rei era bem rendoso. Ademais, Ziriak morava numa grande casa, tinha muitos criados e todos os nobres da corte o saudavam respeitosamente.
Não desistiu, porém, o esforçado Ziriak, de descobrir o grande mistério de ‘Alima. Continuando a ler o livro encantado, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. E a fim de ir compreendendo o que lia, foi obrigado a estudar matemática com calculistas da cidade, tornando-se, ao cabo de pouco tempo, grande conhecedor das complicadas transformações aritméticas.
Graças a esses novos conhecimentos adquiridos, pôde Ziriak, volvidos três anos, calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o Eufrates. Esse trabalho agradou tanto ao rei, que o monarca resolveu nomeá-lo para exercer o cargo de grão-vizir. O antigo e humilde alfaiate passava, assim, a ser um dos homens mais notáveis da cidade. Activo e sempre empenhado em desvendar o segredo do tal livro, foi compelido a estudar profundamente as leis, os princípios religiosos do seu país e os do povo caldeu. Com o auxílio desses novos conhecimentos, conseguiu Ziriak, após outros dois anos, resolver uma antiga contenda judicial que nenhum dos outros doutores havera conseguido solucionar. Devido a esse feito, foi o nosso esforçado herói ocupar o elevado cargo de ministro.
Mas – coisa interessante! – Ziriak não conhecia ainda o segredo do livro de ‘Alima, embora já tivesse lido e relido, várias vezes ao longo dos anos, todas as páginas, sem omitir uma. Como poderia ele penetrar naquele mistério?
E um dia, cavaqueando com um venerando sacerdote, teve ocasião de referir-se à incógnita que o atormentava. Riu-se o bom religioso, ao ouvir a ingénua confissão do grande vizir e, afeito a decifrar os maiores enigmas da vida, assim falou: “O tesouro de ‘Alima já está em vosso poder, meu senhor! Por privilégio desse livro misterioso é que adquiristes tamanho conhecimento, que vos proporcionou os invejáveis bens que ora possuis. ‘Alima significa «Saber». O mar de Motaleh Kardan é a vossa dedicação ao «Estudo» e ‘Amal quer dizer «Trabalho». Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os que se ocultam no seio da terra ou sob os abismos do mar”.
Tinha razão o esclarecido sacerdote. ‘Alima, o génio, guarda realmente um tesouro valiosíssimo, que qualquer homem esforçado, humilde e inteligente pode conseguir. Essa riqueza prodigiosa não se acha, contudo, perdida no seio da terra nem nas profundezas dos mares. Encontramo-la sim, ao longo do tempo, o melhor mestre, nos bons livros, que proporcionando saber aos homens, abrem, para aqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade, as grutas maravilhosas de mil tesouros encantados. Essa é, insofismavelmente, a verdadeira fortuna para quem a busca do saber será sempre o seu destino, para que a ignorância jamais seja a sua ruína...

sábado, 10 de março de 2018

A criação do mundo por «Atum»

“Quando o céu e a terra ainda não estavam formados, os vermes e os seus inimigos não tinham sido criados, quando não havia vida alguma, no começo de tudo só existia «Atum» ou «Atom». Então «Atum» elevou-se do «Num», postando-se no cimo da colina primordial. E, depois de algum tempo, «Atum» fartou-se da sua solidão e, masturbando-se, engoliu o seu próprio sémen, que conseguira com a ajuda de sua mão. Depois de se ter fecundado a si mesmo, deu à luz a «Chu», o ar, e a «Tefnut», a humidade, os quais lançou da sua boca. «Chu» e «Tefnut» fizeram «Geb», a terra, e «Nut», o céu. Por sua vez, estes geraram «Isis» e «Osíris», a deusa da vida e o senhor do reino dos mortos, depois dos quais vieram «Set» e «Néftis», o deus dos territórios estrangeiros, e a senhora da casa. Apareceu então o reino de «Horus», o filho de «Isis» e de «Osíris». Estas nove divindades formam a Enéade de Heliópolis.
«A criação do mundo por Atum». 
Foto no Templo de Karnak ou Ipet-sut (“o melhor de todos os lugares”).

sexta-feira, 9 de março de 2018

O Livro do Destino

Determinou o acaso que a minha modesta experiência de vida tenha vindo a ser, sucessiva e progressivamente, enriquecida nas viagens que vou efectuando, com o conhecimento de variados lugares e, com mais interesse ainda, de múltiplas gentes e quantiosas sensibilidades. E esta viagem começa onde a última acaba. Numa das minhas primeiras benfazejas jornadas de peregrinação pessoal, interior e geográfica, achei-me em Qaryat Al-Fau, no Reino da Arábia Saudita, aonde me desloquei por cortesia da Universidade do Rei Al-Saud, daquele país. Al-Fau (“a fenda”) é um primitivo entreposto comercial das antigas caravanas que, nos distantes reinos de Saba’, Qataban e Hadramauth, atravessavam esta vasta região a sul da Península Arábica, a 700 km a sudoeste da cidade de Riyadh, a meio caminho de Najran, província sobranceira ao terrível deserto de “Rubz Al-Khali” (“quarto vazio”), a maior e mais atroz superfície ininterrupta de areia do mundo, com uma superfície de cerca de 647.500 Km² e com temperaturas que chegam a ultrapassar, à sombra, os 50ºC.
Certa noite, na quietude do deserto, num momento único de admirável vigília, quando se estende o corpo e a alma e ambas se tornam permeáveis a uma outra visão de si, enquanto contemplava o imenso espaço penetrando as estrelas cintilantes dobrando céu, no sítio onde se faz a osmose entre o paroxismo das coisas verdadeiras e sensíveis e nos procuramos descobrir, um ancião de nívea túnica aproximou-se e parou à minha frente.
Fixou-me demoradamente nos olhos como que para tentar decifrar quem eu era. Com decorosa amabilidade, começou a recitar uma estranha melopeia, incompreensíveis palíndromos, trocando comigo uma espécie de diálogo de saudação, interpelando mais ou menos isto: “Como estás, ó irmão dos beduínos? O céu é favorável à tua saúde?...”
A tudo isso eu respondia com um “Al-hamdu li-llah!”, que quer dizer “graças a Deus!”. Trocámos este diálogo por três vezes, até que ele, mastigando um pouco de seco “kishk” (planta de forma triangular, cujas sementes são geralmente de sabor picante), ocupou um lugar em volta da fogueira, e se me dirigiu desta forma: “Esquece, meu amigo, por um momento, as tristezas e as aflitivas preocupações. Aproxima o teu coração das obras em que acreditas, procurando conquistar grandes vitórias. Gozarás da saúde do corpo e da lucidez da mente. Senta-te aqui a meu lado e escuta, com religiosa atenção, esta história singular que deve ser contada cem mil vezes para que os homens de sentimento possam dela colher as tâmaras mais doces da beleza e da verdade”.
E a dulcificada fragrância do chá de menta envolveu-nos naquele conto: “Em nome de “Allah”, Clemente e Misericordioso!” – começou – “todos temos escrito no “Livro do Destino” a nossa página da vida, com tudo o que de bom ou de mau vai acontecer. “Maktub”! [está escrito!]”.
Depois de uma razia terrível que um impiedoso beduíno fizera num caravançará em Sulayyil, um velho feiticeiro, em sinal de gratidão por o ter salvo, deu-me um talismã raríssimo que continha uma pedra negra, pequenina, em forma de coração, encontrada, anos antes, no túmulo de um marabuto. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada na famosa “Gruta da Fatalidade”, onde se encontra o “Livro do Destino”. Viajei longos anos até ao alto das montanhas de Masirah, percorrendo as margens do “uadi al-hamda”, para além do deserto de Dahna, a fim de alcançar a gruta encantada. Um bondoso “jinn” [génio mágico da mitologia árabe, ser encantado cuja origem remonta à era pré-islâmica; suposta criatura situada algures entre os humanos e os espíritos], que estava de sentinela à porta, deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por breves minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Todavia, movido pelos mais torpes sentimentos de aversão e de vingança, abri a página da vida dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, prejudicar todos eles. Sem hesitar, num ímpeto de infâmia, acrescentei, no desenrolar da vida de cada um, os maiores tormentos, alijando todos os meus desafectos!”
“E na tua vida?” – indaguei, mirando-o com surpresa – “Que fizeste, ó caravaneiro, na página que o destino dedicara à tua própria existência?”
“Ah, meu amigo!” – atalhou o desconhecido, contorcendo as mãos – “Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci de fazer o bem a mim mesmo. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando pensei em tornar feliz a minha vida, tinha cessado o meu tempo. Repentinamente, surgiu-me na frente um “ifrit” feroz [“ifrit”, no fundo, designa um ser sobrenatural, um génio encantado, ao mesmo tempo maligno e esperto] que me agarrou com força, e depois de me arrancar das mãos o talismã, atirou-me para fora da gruta. Perdi os sentidos. Quando recuperei a consciência, estava muito longe da cava, para além de Al-Wusta, junto a um oásis no deserto de Oman, sem o talismã precioso!”
E concluiu, entre suspiros, com a voz cada vez mais rouca e baixa: “Perdi a única oportunidade que tive de ser rico, estimado e feliz!”...
Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hijaz encerrava profundo ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal aos seus semelhantes, se esquecem do bem que podem trazer a si próprios?
Uassalam!”