quarta-feira, 20 de junho de 2018

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (III)


Persépolis é hoje um bem conservado e excepcional sítio arqueológico, dotado de serviços de apoio de muito boa qualidade. Pela dimensão e beleza, possui um enorme poder evocativo do seu esplendor passado de cidade puramente cerimonial. Por altura do ano novo do calendário mazdeísta, todos os estados vassalos vinham reafirmar a sua submissão e prestar tributo ao Rei dos Reis. A cidade, idealizada por Dario I (séc. IV a. C.), guardava ainda muito do seu esplendor quando, em 330 a.C., Alexandre, “o Grande”, a invadiu sem encontrar resistência, pilhando todas as suas riquezas, mas poupando os edifícios, salvo o Palácio Real, que foi pasto do fogo;
Tezerj fica no caminho entre Bandar Abbas e Kerman, no exuberante oásis do deserto que cerca as imediações de Saadat Abad. As águas da caudalosa nascente, que se derramam em cascata, sustentam a vida em redor;
Naqsh-e Rostam fica sensivelmente a quatro quilómetros, a norte de Persépolis, localizada nas falésias de Kuh-e Hossein. Foi aqui que os reis aqueménidas Dario I (521-485 a.C.) e os seus sucessores Xerxes I (485-465 a.C.), Artaxerxes I (465-424 a.C.) e Dario II (425-405 a.C.), mandaram escavar os seus túmulos.
Na mesma falésia, foram posteriormente acrescentadas, na época sassânida, diversos baixos relevos e inscrições. Em frente, encontra-se uma pequena construção isolada, possivelmente um antigo templo do fogo;
A cidade de Naein, que pertence à província de Isfahan, fica no cruzamento das estradas que conduzem a Yazd e a Tehran. Tem importantes monumentos, como a Mesquita Aljama que possui elementos que remontam ao século X. É também célebre uma bela mansão da época safávida, de pinturas murais com decoração vegetalista e alegórica, dragões e fénix;
Na estrada que vai de Yazd para Shiraz, depara-se-nos a pequena cidade de Arbakuh, cidade-oásis e, em tempos idos, caravaneira. Tem, pelo menos, dois monumentos dignos de realce: a Mesquita Aljama, do século XIII e uma torre do silêncio, Gonbad-e Ali, do século XI. Todavia, o “monumento” mais notável é, sem dúvida, o seu gigantesco cipreste. Para os sufis, uma árvore sagrada e símbolo da totalidade em potência. O venerável cipreste faz jus a essa devoção, uma vez que, segundo a placa, com dados científicos que junto ao mesmo se encontra, terá a provecta idade de 4500 anos, o que o torna uma das árvores mais antigas da Terra;
A prestigiosa cidade de Kerman, fundada no século III (d.C.) e capital da província com o mesmo nome, fica a 1800 metros de altitude no planalto iraniano. Na região da cidade do pistacho têm sido descobertos vestígios arqueológicos que remontam ao século V (a.C.). Encruzilhada de civilizações e, por esse facto, sujeita a todo o tipo de invasões, a antiga Karmina, de clima desértico e de montanha, é rica em belezas naturais e conta com cidades únicas, como a já referida Bam;
Fazendo parte da província de Hormuzgan, a pequena ilha de Ormuz, cujo nome é tão familiar aos portugueses, situa-se no golfo Pérsico, a curta distância de Oman e dos Emirados Árabes Unidos. Esta posição estratégica tornou-se inevitavelmente um importante entreposto comercial. Por ela passavam, desde o século XIV, toda a sorte de mercadorias, nomeadamente especiarias, vindas da China e da Índia. Apesar do tempestuoso estreito que a separa do continente asiático, da insalubridade do seu clima subtropical e da escassez de água e vegetação, Afonso de Albuquerque escolheu-a para nela estabelecer o seu domínio, em nome de Portugal. Assim assegurou o controle de um dos mais importantes itinerários da rota comercial do oriente, naquelas paragens. A isso se deve a conquista da ilha em 1507 e a sua reconquista em 1515. A fortaleza que nela ainda existe foi construída com blocos de coral retirados do mar. Em 1622, com o auxílio de uma frota inglesa, Shah Abbas conseguiu tomar a ilha aos portugueses e apoderar-se da fortaleza;
(continua)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios (II)


E, mais do que um genuíno mergulho no mito, rememoro as cidades de maior notabilidade:
A nobre Teerão, fundada por volta do século XI, erguida no sopé dos montes Elburz, rodeada de montanhas, nevadas grande parte do ano. O grande desenvolvimento da cidade ocorreu a partir do primeiro quartel do século XX, razão pela qual Teerão é entre as cidades iranianas a que possui um aspecto menos oriental. A parte norte da cidade corresponde à cidade nova e a parte sul à cidade do tempo dos Qajar. Não se podendo comparar em beleza aos grandes centros urbanos do período clássico, não deixa, apesar disso, de ter muitos encantos, como é o caso dos seus formosos palácios, jardins e valiosos museus. Emblemático é o Palácio Gulistan (“das rosas”) da época qadjar, rodeado de jardins e que foi cenário de numerosos episódios da história política do Irão. Um dos seus pavilhões abriga hoje o Museu Etnográfico Mardom Shenazi;
Shiraz, capital da província de Fars e situada num oásis dos Montes Zagros, é a mais poética de todas as cidades do Irão. A arte de um viver, simultaneamente hedonístico e espiritual, deu-lhe uma fama que ainda hoje ressalta do espírito do lugar. Terra dos poetas Sa’adi e Hafiz, são célebres os seus jardins e rouxinóis. O esplendor da cidade atingiu o cume no período islâmico, convertendo-se, a partir do século XIII, na capital literária da Pérsia. Tal acarretou uma sofisticação máxima, em tudo o que respeita às artes ligadas ao livro: a caligrafia, a iluminura e a encadernação. Shiraz, talvez devido ao seu prestígio intelectual, foi poupada pelas invasões mongóis de Gengis Khan (1220) e Tamerlão (1387). Se hoje a cidade, do ponto de vista económico, perdeu muita da sua importância estratégica, a inestimável herança cultural, paisagística e arquitectónica, fazem dela uma incontornável jóia para o visitante;
Saadat-Shahr, uma pequena cidade, cujo nome significa “cidade da felicidade”, situada entre Marvdast e Qader Shahr, junto à estrada que liga Shiraz a Yazd, foi toda ela construída em barro (adobe), fazendo lembrar a célebre Bam, património mundial, destruída em 2003 por um terrível terramoto;
Qom, capital da província com o mesmo nome, também conhecida por Q’um ou Ghom, localiza-se a 156 km a sudoeste de Teerão. Considerado o maior centro de ensino shi’ita, é uma cidade importante, santuário e expressivo destino de peregrinações. Existe uma tradição folclórica que afirma que o “12º Iman Oculto”, o grande salvador espiritual, dará uma importância especial à mesquita Jamkaran, na periferia da cidade, especialmente a uma fonte localizada por detrás da mesquita, de onde surgirá durante o período de caos mundial e obscuridade para liderar a batalha apocalíptica entre o bem e o mal e estabelecer uma nova ordem global. É comum ver-se crentes a lançar, a esse poço, papéis escritos com as suas orações e pedidos pessoais;
Yazd, ou “esmeralda”, fica situada no deserto a sudeste, a 1230 metros de altitude, sendo rodeada por lagos salgados. A sua construção em zona tão adversa deve-se à situação estratégica da localização entre Isfahan e Kerman, na rota que leva ao Paquistão e ao Afeganistão. Célebre pelos seus têxteis e tapetes, foi mais uma das cidades poupadas pelas invasões mongóis. É conhecida como terra de adoradores de fogo zoroastrianos. Para além das ruínas das “Torres do Silêncio”, são célebres as suas torres do vento (“bagdir”), ainda hoje em uso em numerosas construções, para refrescar as casas e a água, através de um sistema de ventilação natural.
(continua)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Irão: Uma Viagem ao País dos Tesouros e dos Mistérios


“Quem quer compreender a poesia, deve ir ao país da poesia. Quem quer entender o poeta, deve ir ao país do poeta.” (Goethe)

Em Junho de 2002, a convite da Iranology Foundation of Tehran e da Secção Cultural da Embaixada da República Islâmica do Irão em Lisboa, participei no I Congresso Nacional de Estudos do Irão com o trabalho “Jumhuri-ye Eslami-ye Iran: Terra do Leão e do Sol”, integrado nos Estudos de Iranologia da Universidade de Tehran Buzurg. A minha procura do “oriente donde vem tudo, o dia e a fé, pomposo e fanático e quente, o oriente budista, bramânico, sintoísta”, como diria Fernando Pessoa, passava basicamente por conhecer aquela Pérsia mítica e mística que me povoava, desde a juventude, os sonhos mais intrínsecos. As cúpulas turquesa que pontificavam na obra “Mil e Uma Noites” (“alf laila ua laila”), os esplendores perdidos de Persépolis e Parsagada, a poesia inefável de Rumi, Hafiz, Sa’adi, Ferdusi, Nezami, Khayyam, Rudaki e tantos outros, faziam, desde há muito, parte da minha matriz interior.
E o Irão que eu revivo – aquela terra a que Michelet apelidou “a grande estrada do género humano” – é o Irão que se tornou morada de saberes, tesouros e mistérios, que os séculos a forma lhe trouxeram modelando sonhos nele erguidos, do pasto para a poesia, do remanso da sua gente fechada, sóbria, especialmente sentimental, culta, amável e de uma generosidade iniludível, portadora de uma herança cultural e histórica fabulosa que, lamentavelmente, muitas vezes os media, e sobretudo a “squared reality” do pequeno monitor, distorcem burlescamente.
É o país do “taarof” – costume local de recusar, com hospitaleira elegância cerimonial, após duas vezes, antes de finalmente se pagar pelo que nos é vendido –, facto que originou o viver de situações insólitas que, inda hoje, ao contá-las, continuam a suscitar a mesma satisfação e motivo de gracejo que naquela altura experimentei. É a terra da brisa morna, das noites claras, dos corais e da prece dos crentes. É o Irão do frenesim, do exotismo dos bazares e do tropel do tempo. Dos perfumes inebriantes e particulares a roseiras mil à espera de florir e do cheiro a arroz de açafrão (“safran”). Do sopro fagueiro do dervixe que ali jaz, da mulher de “chaador”, de olhar seráfico e do homem austero de altivo “dullband” (turbante). Dos ciprestes banhados de luar, do rouxinol, dos luxuosos tapetes característicos, das alamedas majestosas, do pitoresco das flores, das soberbas mesquitas de telhados abobadados e azulejos azul-turquesa no vórtice das almas, da luz, do infinito, das sombras e do silêncio, do “pishtaq” de uma elegância que embota o ruído e das cúpulas que revelam o cosmos que existe em nós.
Reza um velho aforismo persa: “o Irão tem um poeta para cada estrela do céu”. O dom da imaginação poética e artística revelam-no através de duas obras fundamentais da sua literatura, escritas no século XV e que chegaram até nós acompanhadas de iluminuras de um excepcional valor artístico. Um desses livros, “Kalila e Dimna”, crê-se ter influenciado La Fontaine ao compor as suas “Fábulas”. Os escritores franceses do século XVIII mostraram-se muito interessados pelo exotismo oriental. Montesquieu, nas “Cartas Persas”, oferece-nos uma interpretação dos sentimentos, maneira de viver, costumes e trajar dos persas do seu tempo. E “As Mil e Uma Noites” foram conhecidas na Europa, na mesma época, por uma tradução francesa. Foi essa curiosidade pelos usos e costumes de povos estranhos que fez penetrar na Europa o jogo do pólo, praticado pelos reis e senhores da Pérsia, como documenta uma bela miniatura datada do século XVI.
Contemplo e demoro-me, em instantes de meditação, em alguns dos seus locais, uns emblemáticos, outros anódinos, mas todos eles perpassados por uma espiritualidade transversal ao tempo, do zoroastrismo – crença monoteísta fundada por Zoroastro ou Zaratustra (séc. VI a.C.), que se tornou religião oficial da Pérsia no século III e ainda é professada por tribos do interior do Irão e parsis da Índia – ao Islão, e que encontra no Sufismo a sua mais luminosa expressão.
Faz-me guarda a lembrança da componente iraniana que nem faltou sequer no cadinho onde se formou a portugalidade, uma vez que os alanos, povo persa, também passaram pelo território da Lusitânia.
(continua)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Busca do Sonho

Foto do autor
Contam os homens dignos de fé que existiu no Cairo um homem possuidor de infindáveis riquezas. No entanto, era tão magnânimo e desregrado, que as perdeu todas nos jogos de azar. Restava-lhe, excepcionalmente, a velha casa em que vivia, herdada de seu pai, já falecido. Perante esta situação delicada, viu-se forçado a trabalhar para ganhar o seu pão.
Um dia, trabalhou tanto, tanto, que o sono o venceu e acabou por adormecer, sob uma frondosa figueira do seu jardim. Foi quando, em sonhos, vislumbrou um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “A tua fortuna está na Pérsia, em Isfahan. Vai buscá-la.”
Na manhã seguinte, após a oração de “al-fajr” (ou “as-subh”; oração da madrugada), empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, da sede, dos piratas, dos idolatras, dos rios turbulentos, dos ventos buliçosos, das feras e dos homens sem escrúpulos.
Chegou finalmente a Isfahan e, no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Entretanto, um bando de delinquentes atravessou o pátio da mesquita e começou a fazer imenso alarido. Despertando com o barulho, as pessoas que viviam na redondeza pediram socorro, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquele distrito acudiu com os seus homens e os bandoleiros tiveram de escapar pelos terraços. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo. Confundindo-o com um dos larápios desordeiros, pegaram nele e levaram-no para a cadeia.
Lá chegado, perguntou-lhe o capitão: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” “Sou da famosa cidade do Cairo, no longínquo Misr (Egipto). O meu nome é Mohamed El-Magrebi!”, declarou o outro. Questionou o capitão: “O que te trouxe à Pérsia?” O homem do Cairo optou pela verdade e relatou a sua fantasia: “Uma figura ordenou-me, em sonhos, que eu viesse a Isfahan porque aqui estaria a minha fortuna. Ainda agora cheguei a Isfahan e a única fortuna prometida que se me depara é a horrenda “hospitalidade” que me concedestes”.
Ao escutar este desabafo, o capitão riu tão insanamente que se conseguiam ver os dentes todos da boca. Depois, disse com voz alterada e poderosa: “Homem desajuizado, atoleimado e estouvado, eu já sonhei três vezes com uma casa em terracota no Cairo, no fundo da qual há um jardim circular, e nesse jardim circular existe um relógio de sol, e depois do relógio, uma frondejante figueira, e logo depois da frondejante figueira, uma fonte de mármore verde, e sob a fonte de mármore verde, um tesouro. Não dei o menor crédito a essa aldrabice e tu, “produto de uma mula com aquele que transporta o archote” (referindo-se ao demónio), não obstante, vens errando de cidade em cidade, baseado unicamente na fé de um qualquer sonho tonto. Toma estas moedas e vai embora!”
O homem pegou nas moedas e regressou rapidamente à sua pátria. Lá chegado, sob a fonte de mármore verde, no jardim circular, depois da frondejante figueira e do relógio de sol da sua própria casa de terracota, a mesma do sonho do estrambótico capitão, desenterrou Mohamed o tesouro. Tesouro que, afinal, ó tamanhas adversidades e vãos tormentos, ali sempre tinha existido, mesmo diante de si...

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A Predestinação

Foto do autor
Os muçulmanos acreditam no “qaddar”, uma palavra geralmente traduzida como “predestinação”, mas cujo sentido mais preciso é “medir” ou “decidir quantidade ou qualidade”.
A palavra árabe “maktub” (“estava escrito!”), particípio passado do verbo “katb”, “escrever”, admite o fatalismo dos árabes de que a nossa vida, com todas as peripécias. Significa resignação. O “seja tudo o que Deus quiser”. “Tinha que acontecer”. É um pouco o “post nubila phoebus”, isto é, “depois da tempestade, virá a bonança”. “Maalish”. Outro termo árabe que significa “não tem importância”, e que reflecte a crença no fatalismo e na inevitabilidade daquilo que estará escrito nas estrelas...
Aliás, esse sentimento está bem patente na forma de estar do povo árabe, e na sua maneira de encarar a vida, como narra, com singularidade, aquele popular texto sobre um poderoso homem de Baghdad que, um dia, enviou o seu criado ao mercado para fazer uma compra. Este, deambulando pelo dédalo do “suq” [palavra que significa “mercado”, “rua principal”, “rua comercial” ou “bazar”; deriva do verbo “saqa’”, “conduzir”, “transportar”; em português, precedida do artigo definido “al” solar, “as”, deu origem à palavra “açougue”], ao desembocar numa praça, depara com alguém, vestido de negro, com ar profundamente inquietante, que o fita com um olhar aterrador. Preso de incontornável pânico, o criado desata a fugir em direcção a casa onde, ao chegar quase sem fôlego, conta ao patrão o sucedido, anunciando-lhe: “Vou-me já embora! Vi a Morte que me espreitava. Irei atravessar durante a noite o deserto e refugiar-me longe, em Samarra. Fugirei agora mesmo para Samarra!”
O patrão, indignado, sai porta fora com intenção de ir ao mercado tentar inverter a situação, já que não estava disposto a perder tão valioso colaborador. Ao chegar ao “suq”, e depois de ter procurado um pouco, não tardou em avistar a sinistra figura recolhida num dos recantos da praça. Resolutamente, interpela-a: “Com que direito aterrorizaste, há pouco, o meu pobre criado, a ponto de ele querer deixar o meu serviço e se preparar para fugir?”
Então a Morte olha-o melancolicamente e responde-lhe com ar vagaroso: “Aterrorizá-lo, eu? Pelo contrário. Se o olhei fixamente foi, apenas, por causa da grande surpresa de o ter encontrado aqui, em Baghdad, quando tenho encontro marcado com ele, amanhã... em Samarra!”