quinta-feira, 6 de junho de 2019

O Livro do Destino

Foto do autor
Determinou o acaso que a minha modesta experiência de vida tenha vindo a ser, sucessiva e progressivamente, enriquecida nas viagens que vou efectuando, com o conhecimento de variados lugares e, com mais interesse ainda, de múltiplas gentes e quantiosas sensibilidades. E esta viagem começa onde a última acaba. 
Numa das minhas primeiras benfazejas jornadas de peregrinação pessoal, interior e geográfica, achei-me em Qaryat Al-Fau, no Reino da Arábia Saudita, aonde me desloquei por cortesia da Universidade do Rei Al-Saud, daquele país. 
Al-Fau (“a fenda”) é um primitivo entreposto comercial das antigas caravanas que, nos distantes reinos de Saba’, Qataban e Hadramauth, atravessavam esta vasta região a sul da Península Arábica, a 700 km a sudoeste da cidade de Riyadh, a meio caminho de Najran, província sobranceira ao terrível deserto de “Rubz Al-Khali” (“quarto vazio”), a maior e mais atroz superfície ininterrupta de areia do mundo, com uma superfície de cerca de 647.500 Km² e com temperaturas que chegam a ultrapassar, à sombra, os 50ºC.
Certa noite, na quietude do deserto, num momento único de admirável vigília, quando se estende o corpo e a alma e ambas se tornam permeáveis a uma outra visão de si, enquanto contemplava o imenso espaço penetrando as estrelas cintilantes dobrando céu, no sítio onde se faz a osmose entre o paroxismo das coisas verdadeiras e sensíveis e nos procuramos descobrir, um ancião de nívea túnica aproximou-se e parou à minha frente.
Fixou-me demoradamente nos olhos como que para tentar decifrar quem eu era. Com decorosa amabilidade, começou a recitar uma estranha melopeia, incompreensíveis palíndromos, trocando comigo uma espécie de diálogo de saudação, interpelando mais ou menos isto: “Como estás, ó irmão dos beduínos? O céu é favorável à tua saúde?...”
A tudo isso eu respondia com um “Al-hamdu li-llah!”, que quer dizer “graças a Deus!”. Trocámos este diálogo por três vezes, até que ele, mastigando um pouco de seco “kishk” (planta de forma triangular, cujas sementes são geralmente de sabor picante), ocupou um lugar em volta da fogueira, e se me dirigiu desta forma: “Esquece, meu amigo, por um momento, as tristezas e as aflitivas preocupações. Aproxima o teu coração das obras em que acreditas, procurando conquistar grandes vitórias. Gozarás da saúde do corpo e da lucidez da mente. Senta-te aqui a meu lado e escuta, com religiosa atenção, esta história singular que deve ser contada cem mil vezes para que os homens de sentimento possam dela colher as tâmaras mais doces da beleza e da verdade”.
E a dulcificada fragrância do chá de menta envolveu-nos naquele conto: “Em nome de “Allah”, Clemente e Misericordioso!” – começou – “todos temos escrito no “Livro do Destino” a nossa página da vida, com tudo o que de bom ou de mau vai acontecer. “Maktub”! [está escrito!].
Foto do autor
Depois de uma razia terrível que um impiedoso beduíno fizera num caravançará em Sulayyil, um velho feiticeiro, em sinal de gratidão por o ter salvo, deu-me um talismã raríssimo que continha uma pedra negra, pequenina, em forma de coração, encontrada, anos antes, no túmulo de um marabuto. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada na famosa “Gruta da Fatalidade”, onde se encontra o “Livro do Destino”. Viajei longos anos até ao alto das montanhas de Masirah, percorrendo as margens do “uadi al-hamda”, para além do deserto de Dahna, a fim de alcançar a gruta encantada. Um bondoso “jinn” [génio mágico da mitologia árabe, ser encantado cuja origem remonta à era pré-islâmica; suposta criatura situada algures entre os humanos e os espíritos], que estava de sentinela à porta, deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por breves minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Todavia, movido pelos mais torpes sentimentos de aversão e de vingança, abri a página da vida dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, prejudicar todos eles. Sem hesitar, num ímpeto de infâmia, acrescentei, no desenrolar da vida de cada um, os maiores tormentos, alijando todos os meus desafectos!”
“E na tua vida?” – indaguei, mirando-o com surpresa – “Que fizeste, ó caravaneiro, na página que o destino dedicara à tua própria existência?”
“Ah, meu amigo!” – atalhou o desconhecido, contorcendo as mãos – “Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci de fazer o bem a mim mesmo. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando pensei em tornar feliz a minha vida, tinha cessado o meu tempo. Repentinamente, surgiu-me na frente um “ifrit” feroz [“ifrit”, no fundo, designa um ser sobrenatural, um génio encantado, ao mesmo tempo maligno e esperto] que me agarrou com força, e depois de me arrancar das mãos o talismã, atirou-me para fora da gruta. Perdi os sentidos. Quando recuperei a consciência, estava muito longe da cava, para além de Al-Wusta, junto a um oásis no deserto de Oman, sem o talismã precioso!”
E concluiu, entre suspiros, com a voz cada vez mais rouca e baixa: “Perdi a única oportunidade que tive de ser rico, estimado e feliz!”...
Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hijaz encerrava profundo ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal aos seus semelhantes, se esquecem do bem que podem trazer a si próprios?
Uassalam!”

quarta-feira, 1 de maio de 2019

O Mês de Ramadão


Os muçulmanos de todo o mundo iniciam já no próximo dia 5 (ou 6, de acordo com o calendário lunar), e cumprem, durante um mês, o período de jejum do Ramadão, ou “Ramazan” como é pronunciado no Afeganistão. 
O vocábulo Ramadão, na tradução literal do árabe “ramadhan” (raiz de “ramadha”, “arder”, ou “ar-ramadh”, de “calor intenso e escaldante”) foi usado pelos antigos árabes, nos primórdios do Islão, com o móbil de se designar o mês do jejum, denominação que perdurou até aos nossos dias. Para o Islão, é um mês com um significado muito especial dado que ele envolve um trinómio Jejum – Meditação – Penitência.
O mês de Ramadão representa para os devotos muçulmanos de praticamente todas as idades e correntes de interpretação um sentimento especial de entusiasmo emocional e zelo religioso.

Relativamente ao “jejum” (“sawm”), o quarto cardinal da crença islâmica, Maomé acabará por marcar-lhe uma data específica: a 27ª noite do nono mês do calendário lunar muçulmano, o mês de “Ramadan”, explicitamente o “fogo do céu”, consagrada no Alcorão como “a noite do destino” ou “a noite de majestade”. O mês da “Revelação”, consignado como o do abandono total e confiante a Deus (“at-tawakkul”). “A noite de majestade é melhor do que mil meses. Os anjos e o Espírito descem nessa noite, com autorização do Senhor, para todos os assuntos. Paz! Ela dura até ao amanhecer” (Alcorão, “al-qadr”, XCVIII: 3-5). Os últimos dez dias do mês do Ramadão são considerados especialmente abençoados, com destaque para esta noite. É, por essa razão, muito comum, neste período, os muçulmanos mais conservadores passarem imenso tempo em oração nas mesquitas, recitando o Alcorão.
Influiu também na escolha deste mês a circunstância de com ele se relacionarem várias supersticiosidades pré-islâmicas. Esta será a época em que os demónios estão amarrados, as portas do inferno cerradas e as sete entradas do paraíso abertas. Uma dessas entradas, chamada “rayyan”, está reservada especialmente, no dia da Ressurreição, aos que tiverem suportado a abstinência com rigor e humildade.
O jejum de Ramadão é obrigatório para qualquer muçulmano responsável e apto e consiste na abstenção quotidiana e diurna (da alvorada até aos primeiros indícios do pôr do sol) de todo o tipo de alimentação, bebida, de tabaco, de contacto sexual, uso de perfumes, de tudo o que, em suma, possa deleitar o corpo. Salienta ainda a tradição que é preciso jejuar de boca e de pensamento. 
Durante o cumprimento do jejum não só se deve evitar pronunciar certas palavras como também ter pensamentos perniciosos, pois caso assim não se faça o jejum ficará destituído de qualquer valor religioso. O Alcorão dedica-lhe vários versículos. Por razões epistemológicas, merece a pena transcrever, por exemplo, no capítulo II, “al-baqarah”, versículo 183, o Alcorão alude: “Ó crentes! Foi-vos prescrito o jejum, da mesma forma como foi ordenado aos vossos antepassados, para que possais afastar a tentação”.
Os enfermos, as crianças que não atingiram ainda a idade da puberdade, os indivíduos com doenças mentais por se admitir não serem responsáveis pelas suas acções, os crentes a empreenderem viagens iguais ou superiores a cinquenta milhas contadas a partir da sua residência habitual, os idosos débeis, aqueles que têm de executar trabalhos pesados, as grávidas, as mulheres quando se encontram no período do ciclo menstrual (o máximo de dez dias), as que amamentam ou no período após o parto (até quarenta dias após o parto) estão isentas do jejum, neste mês, com a condição de cumprirem tantos dias sacrificiais quantos os que perderam pelas causas referidas.
No decurso do dia de jejum, é possível consumirem-se duas refeições; a primeira toma-se após o pôr-do-sol (chamada de “iftar”), momento para reunir os membros da família e os amigos numa celebração de fé e de alegria e, a segunda, antes do recomeço do jejum, bem antes da alvorada, durante madrugada (a “suhoor”). O profeta Maomé terá recomendado quebrar os jejuns com encontros, incentivando a sua comunidade (“’ummah”) a convidar outros para quebrar o jejum em comunhão.

O mês de Ramadão é considerado como um mês de recolhimento, dedicação, devoção efectiva, meditação, altruísmo, força de vontade e penitência, em que os devotos mais ortodoxos ocupam a maior parte do seu tempo na leitura do Alcorão, ou de quaisquer outras obras sobre o Islão, desfiando o “tasbih”, rosário muçulmano de trinta e três ou noventa e nove contas, “misbaha”, enquanto glorificam Deus: “subhana Allah” (“Glorificado seja Deus”), repetido 33 vezes, “al-hamdu li-Llah” (“Louvado seja Deus”), dito outras 33 vezes, e “allahu Akbar” (“Deus é Grande”), citado mais 33 vezes, designando os noventa e nove sublimes atributos e “belos nomes” de Deus, proferidos continuamente como profissão de fé e homenagem de adoração. 
A imobilidade sazonal do jejum acrescenta-se assim ao rigor de um costume que, mesmo abrandando as actividades diurnas e alterando a existência quotidiana, persiste, porque o Islão atribui-lhe uma das mais altas expressões de devoção espiritual, benevolência e solidariedade humana com os mais desfavorecidos. Coesão sublinhada, no fim do jejum, por uma das manifestações mais respeitadas no Islão: a “Id’ul-fitr” ou “Id as-saghir” (“festa da ruptura do jejum” ou “festa pequena”), que ocorre quando a lua nova é avistada no céu, isto é, quando no calendário se dá início ao mês seguinte, o de “shawwal”, e que inclui orações e distribuição de alimentos e esmola pelos pobres. É comum, em todas as cidades islâmicas, decorrerem grandes celebrações em ambiente de intensa congregação.
Este mês representa, em suma, para os devotos muçulmanos de praticamente todas as idades e correntes de interpretação, um sentimento especial de entusiasmo emocional e zelo religioso. 
Ramadan mubarak li 'asdiqaa'y al-muslimin.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Observatório do Mundo Islâmico

Foi hoje oficialmente apresentado, em Lisboa, o Observatório do Mundo Islâmico. Segundo a professora auxiliar da Universidade Autónoma, e vice-presidente do Observatório, Maria João Tomás, “só através do conhecimento há entendimento e é essa a base estruturante do observatório, é ser uma referência do conhecimento em tudo que diz respeito ao mundo islâmico para que haja entendimento, para que se criem pontes”.
O Observatório é transversal a todas as áreas de conhecimento e abarcará os países de maioria islâmica ou cuja religião oficial ou de Estado seja o Islão”, ou seja, todos os países do Norte de África e da Ásia Ocidental e também o Paquistão, Afeganistão, Bangladesh e Indonésia (o maior país de maioria islâmica).
Hoje o mundo árabe é “outro”. E está cada vez mais perto de nós. É presença diária nos noticiários. Adentra-se-nos no quotidiano, na existência, nos ideais, nas relações inter-pessoais, políticas, religiosas, diplomáticas, militares e económicas. Na consciência colectiva.
O mundo islâmico alberga em si diversos grupos étnicos, culturas, saberes, artes, pulsares, dinâmicas internas e movimentos políticos. E é nestes intercâmbios culturais, sociais, políticos e religiosos que a Humanidade mais se desenvolve, adquirindo e melhorando conhecimento anteriores. Dado que o Homem se define sempre em relação ao outro, não se pode menosprezar o papel de outras culturas. Se as águas do grande rio da História sempre nos banharam, não é menos verdade sermos também, em toda a densidade e sem fim, corpo integral desse rio. Somos também as águas desse rio. Mas tudo isso só tem sentido se soubermos respeitar as assimetrias, as culturas, os povos, as religiões, as liberdades.
Para ajudar a encurtar essas distâncias, estabelecer pontes, novas e profícuas vias de comunicação e de aproximação e, com isso, elevar o conhecimento da sociedade civil em relação ao mundo islâmico, o Observatório do Mundo Islâmico faz-se constituir por um reconhecido conjunto de académicos e investigadores ligados à área, com trabalhos já feitos e publicados, formados em diversas áreas de conhecimento, que vão desde a literatura a aspectos securitários, religião, economia, constituindo-se igualmente de utilidade para investidores e empresários, uma vez que a geopolítica está muito ligada com oportunidades de negócio.
O Observatório do Mundo Islâmico é para a sociedade portuguesa, pelo que, por forma a cumprir os seus objectivos, terá ligações a universidades do mundo islâmico, a embaixadas e com a Comunidade Islâmica em Portugal, à qual, de resto, pertencem alguns membros fundadores do observatório.
O Observatório do Mundo Islâmico tem como presidente o professor José Esteves Pereira, da Universidade Nova de Lisboa.
Parabéns ao Observatório por este projecto ímpar.
O “Um Certo Oriente” e, particularmente o seu autor, desejam ao Observatório as maiores venturas, iniciativas, conquistas e êxitos.
Atamanna Laka al khayr.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018


Ibn ‘Arabi legou um dia para a história o magistral aforismo: “O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Ka’bah do peregrino, as tábuas da Tora e o Alcorão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que a sua caravana avance, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé”.
“Um Certo Oriente” é o resultado, um misto, de reflexões, estudos devotos, pesquisa apurada, cuidada observação, análise atenta, feito de pulsares, do coligir de vivências, dinâmicas, mundos, sensibilidades, alfobre de imensuráveis testemunhos que se perscrutam numa cálida e silente hereditariedade de indeléveis recordações, experiências, conhecimento e saber registados ao longo do tempo, nas minhas viagens de peregrinação pessoal, interior e geográfica e, no fim, a partilha discreta ainda que abnegada, séria e elevada, de todas essas impressões, com todos vós, que me acompanham nesses trilhos.
Procuro sempre investir na metáfora do tempo, lugares e situações que, do meu ponto de vista, jogam sobre a divulgação do inesperado. Com efeito, para além da letra impressa e que, de todo em todo, se acomoda ao estatismo das histórias ou ao registo das experiências particulares, existe também a representação múltipla do outro lado dos seres e das coisas, a mobilidade do real, a vida e as pessoas, todo um mundo de impressões que tento recuperar, abrangendo o segmento religião e científico, aliando algumas formas de criatividade estética à convocação de questões imediatamente interessantes de ordem cultural, social e histórica.
E porque essa busca do Saber é contínua e imutável, é tempo de fazer uma pequena pausa e voltar a pegar na mochila, montar a corcova do dromedário, regressar às dunas, submerso na solidão tórrida do meio-dia ou no fascínio gélido da noite do deserto. O “meu” Oriente. Terra-mãe, lugar familiar, berço e até sudário, manancial do questionamento e da resposta. Seguir um pouco mais adiante, ao encontro do que sou, até onde o Destino me levar, até onde a vontade de Deus está primordialmente presente, através dos roteiros da fé, da aventura e dos sonhos. 
Um abraço amplo, autêntico e sentido a todos quantos me têm acompanhado, lido e divulgado, traduzido no radical árabe intra-flexionado de raiz trilítere “S-L-M - Salam, Salym, Salim” - que o ocidental costuma traduzir por “paz”, “amizade”, “confiança”, “integridade” (no sentido físico e moral), “saúde” (fórmula universal de saudação), “salvação”, “aceitação” e “tolerância”. 
Vamo-nos lendo por aí. “Insh’Allah”.